terça-feira, 28 de abril de 2015

O carro fúnebre


Alguém viu o carro fúnebre ainda na cidade vizinha e veio dar o alerta.

Quando o carro chegou as ruas estavam desertas: as crianças fechadas em quartos escuros, de onde não podia sair sob pretexto algum; e as senhoras escondidas atrás das janelas, espreitando a rua pela fresta da cortina.

O carro era na verdade uma van adaptada,conferindo-lhe o aspecto fúnebre a cor preta e a inscrição dourada “agência funerária” nas laterais.

Ver o carro passar entretanto não era motivo para suspiros de alívio. Podia voltar.


Ninguém se esquecia da tarde em que uma pobre senhora viu o carro a parar-lhe à porta e chorou horrores. Ao anoitecer entretanto, quando tinha dezenas de pessoas no seu quintal indo prestar condolências, os preparativos do enterro em andamento, alguns familiares de outras cidades convocados de emergência, foi informada que afinal tinha havido um engano no endereço. Ela tinha estado a chorar no lugar de outra.