terça-feira, 31 de março de 2015

Perdedores


 
Depois de nos lamentarmos das nossas vidas, começavamos a nos rir da desgraça alheia. Na verdade só agora a conversa tornava-se realmente interessante. Fazia sucesso entre nós a história de um sexagenário conhecido nosso. Depois de uma vida inteira de trabalho duro e sacrifícios, decidira que o resto dos seus dias seriam de prazer. Não deu uma volta ao mundo nem se tornou alcoólico. Passou a frequentar uma pensão discreta dos arredores da cidade. Sua convidada era uma mulher três vezes mais nova do que ele. Ela chegava primeiro, pegava a chave na recepção e sumia por um corredor meio iluminado. Poucos minutos depois chegava ele. Trocava um olhar de cumplicidade com o recepcionista e seguia o caminho da mulher. Horas depois ressurgiam os dois do corredor meio iluminado, abraçados e sorridentes. Ele pagava a conta e iam-se embora. Uma tarde, porém, a mulher ressurgiu sozinha, o que na pensão não era permitido sob pretexto algum. Depois de duas perguntas do recepcionista, a mulher confessou que tinha acontecido algo muito grave e desatou a chorar. Foram ao quarto e encontraram o nosso amigo morto e nu.