sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Duas semanas de medo



Chamaram-lhe G20 porque eles eram vinte.

Eles não eram meros pilha-galinhas, eles eram muito perigosos. Noutra semana haviam atacado um carro da polícia e roubado armas, o que os reforçou ainda mais e nos deixou ainda mais amedrontados.

Estávamos particularmente apavorados porque os bandidos não se limitavam a arrombar portas, espancar as vitima e roubar; agora eles tinham incrementado abusos sexuais (mulheres, homens e crianças) e, para finalizar torturavam as vítimas com ferro de engomar em brasa.

Como não poderia falhar, certo religiosos apressaram-se a dizer que nos deixássemos de coisas, pois aquilo era o fim do mundo.

Os meliantes actuavam nos bairros vizinhos havia duas semanas e era uma questão de dias para chegarem no nosso. Era mais do que uma suspeita, pois eles haviam espalhado cartazes dizendo que não se haviam esquecido de nós. Ficamos sem saber se seriam o ultimo bairro porque estávamos mais perto do centro da cidade o porque o melhor da festa (festim ou festival) fica para o fim.

Ficamos muito indignados quando o chefe da polícia disse que o G20 não existia, não passava de mais um boato difundido por gente com intenções inconfessáveis. Segundo ele, algumas pessoas haviam sido violadas sexualmente e engomadas, mas eram todas da mesma família; e apurou-se que tinha sido um caso de ajuste e de contas.

Decidimos que íamos nos defender, ainda que sem o apoio daquela polícia que se recusava a ver o óbvio. Começamos com uma série de medidas: trancar as portas e as janelas, esconder o ferro de engomar bem escondidinho e comprar um apito para cada membro da família (caso ouvíssemos alguma coisa estranha era só desatarmos a apitar que nem loucos). Mas o nosso ponto mais forte era o patrulhamento das ruas do bairro. Eles eram só vinte e nos milhares. Eles não ousariam nos visitar.

É claro que o povo não deixou de brincar com a situação. Vejam a mensagem de texto seguinte: “Pergunta do dia: os homens fazem patrulha para protegerem seus bens ou para protegerem seus cus?”

O patrulhamento resultou. O G20 não nos visitou, pelo menos não em número completo. Na primeira noite queimamos dois (pneus, gasolina e fósforos). Eles juraram até a morte que não eram ladrões e não faziam parte de grupo nenhum. Duas noites depois capturamos mais três “trabalhadores honestos”. Alguns de nós levaram-nos à policia. Mas como a maioria queria justiça, invadimos o lugar e espancamos os três. Noutros dias pegamos mais. Eles tiveram apenas ferimentos graves.



Um mês depois ninguém falava mais do G20. O mais curioso é que, além das vítimas apresentadas pela polícia, ninguém é capaz de jurar que viu as outras, que se tinha dito serem dezenas e dezenas. 23/08/2013

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