quinta-feira, 11 de julho de 2013

Primeiros Socorros


O pior que fizemos foi termo-nos mudado para aquela vila. Aquilo não era lugar para vagabundos. Em uma semana e meia todo mundo já nos conhecia, todo mundo já nos odiava e todo mundo queria nos ver pelas costas.

 
No dia da nossa partida, conseguimos enternecer o coração do dono da estação de serviço à saída da vila. O velho nos contratou porque não havia na região quem quisesse fazer limpezas naquele estabelecimento decadente. Mas o trabalho era pouco e às dez da manha já estávamos livres. E então passávamos o dia o quase inexistente movimento dos carros.

 
Não acreditamos quando certo dia o velho disse que aquela era uma zona de acidentes. As autoridades faziam de tudo para manter a estrada e a sinalização em dia mas aquilo era, inevitavelmente, um autêntico cemitério. O velho quis contar as histórias mas não deixamos; só nos deixariam ainda mais entediados.

 
Mas com tudo não dura para sempre, certo dia um pessoal da vila veio nos convidar para uma festa. Não sei como, souberam que nos éramos bons convivas: tínhamos um papo agradável. Comíamos e bebíamos moderadamente e, sobretudo, éramos bons dançarinos.

 
Confirmamos as nossas habilidades e todos fins-de-semana éramos convidados para algum convívio. O problema era que depois da festa ninguém nos trazia para casa e tínhamos que percorrer aqueles quatro quilómetros a pé.

 
Certo dia, voltando, vimos um carro a uns cinquenta metros da estacão de serviço, com as rodas para o ar. O acidente ocorrera há pouco tempo pois o condutor ainda tinha forcas para pedir socorro. Eu estava menos bêbado que meu irmão e cheguei primeiro.

“Graças a deus! Finalmente alguém chegou”, disse a vítima.

 
Era um homenzinho magro e baixo. Ele não estava muito mal, quebrara uma perna apenas. Continuava no carro porque estava demasiado nervoso para conseguir desatar o cinto de segurança. Mandei-o ficar calmo.

 
“Filho da puta”, disse ele.

 
É que em vez de lhe desatar o cinto de segurança, pus-me a vasculhar seus bolsos e o porta-luvas. Encontrei a carteira e algum dinheiro.

 
“Onde esta o celular?”, perguntei pressionado a sua perna magoada.

 
“Está aqui”, disse o meu irmão, que estava vasculhando o banco de trás. Disse tão desesperadamente como se fosse ele que estava sendo machucado.

 
Entregou-me a carteira e eu ordenei que fossemos embora. Ele quis que pelo menos tirássemos o homem do carro. Eu não quis saber. Ele ficou ali sem saber o que fazer. Depois seguiu-me.

Perto da estacão de serviço ele parou bruscamente.

 
“Vou salvá-lo”, disse e desatou a correr em direcção ao carro.

 
Mas mal deu cinco passos e o carro explodiu. 08/07/2013