domingo, 24 de março de 2013

Um reencontro casual

Eu estava no terceiro dos meus quatro anos perdidos quando descobri uma verdade aterradora: afinal uma cidade de um milhão e meio de habitantes não é suficientemente grande a ponto de permitir que um homem se esconda dos seus amigos, de conhecidos e de alguns familiares. Eles me viam quase todos os dia deambulando pelas ruas da Baixa. Pela minha roupa, o andar arrastado e um olhar distante, viam que a minha vida não estava lá essas coisas.Uns não me abordavam para evitar o mau estar que sentiriam ao me ver naquele estado, outros simplesmente por não terem dois paus que eventualmente teriam de me dar para o transporte.
Descobri a verdade numa certa tarde, caminhando pela sempre movimentada rua das Acácias. Como sempre, estava submerso em meios pensamentos, e de dois em dois metros esbarrava com alguém e a seguirouvia ora um pedido de desculpa ora um insulto. Perto da farmácia Sobral, um vulto obstruiu-me o caminho. Julguei que fosse mais um desses activistas de sei lá o quê ou um mensageiro da palavra de Deus. Abrindo os olhos entretanto vi o meu velho amigo Mário. Quase morri de susto. “Distraído”, disse ele, com um sorrido debochado. Era como se eu tivesse pretendido ignorá-lo e ele, muito mais esperto do que eu, descobrira tudo.Não adiantava explicar que eu tinha a mania de que reflectia melhor nomeio duma multidão do que em casa, numa tarde de domingo chuvosa e fria.
Indicou-me um carrão estacionado do outro lado da rua e ofereceu-me uma boleia. Mal entramos no carro ele começou a contar-me a vida dele. “Te lembras da Sónia? Ela agora é minha mulher”, disse passando-me uma fotografia. Estavam sentados num banco duma praça. Estavam abraçados. Ele fazia uma careta de esforço, era como se a segurasse para não fugir. Ela fazia um sorriso visivelmente forçado. “Ela me ama”, disse ele. Dei-lhe os meus parabéns e devolvi-lhe a fotografia. A Sónia era certamente seu mais valioso tesouro, mais do que o carrão e, se ele fosse coerente, mais do que a sua luxuosa residência. Ele andara atrás dela por toda nossa adolescência e começo da juventude. Seu maior sonho era ganhar muito dinheiro e então poder conquistar a sua amada. Mas Sónia tinha um problema qualquer com o Mário: dava pra todo mundo, menos pra ele. Não, eu não tive nada com ela, e não foi por falta de oportunidade. Uma vez vi Sónia numa situação constrangedora e resolvi fazer-lhe uma chantangenzinha. Quase morri de ansiedade esperando por ela nos fundos do casarão abandonado. Mas quando ela finalmente chegou, em vez de estar contrariada, enojada e chorando, ela estava super à vontade, agindo com a maior das naturalidades. Ela estragou a minha fantasia masoquista.

Apesar de tudo, o meu amigo havia realizado o seu maior sonho e estava feliz.
Quando me perguntou onde eu morava, eu disse o nome de um bairro vizinho do meu, um bairro um pouco menos degradado do que o meu. 21/03/2013

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