quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Linchamento



Uma madrugada, surpreendemos o nosso vizinho do lado esquerdo na nossa sala, roubando a nossa televisão. Chorando, o vizinho suplicou que o perdoássemos e que não tornássemos o caso público. Mas meu marido não podia deixá-lo ir embora sem antes censurá-lo severamente, afinal de contas o vizinho era uma das pessoas mais respeitadas do bairro. Que decepção!

Ao sair de casa, foi recebido por uma multidão que se juntara no quintal. Rodearam-no e puseram-se a vaiá-lo. E não foi difícil que os mais indignados lhe mandassem ora um pontapé ora um soco. Meu marido tentou inutilmente evitar que o vizinho fosse agredido, ganhando apenas algumas pauladas.

A certa altura uma voz gritou “morte”. Pouco depois a palavra era gritada por toda gente. O destino do homem já estava decidido. Do nada apareceu um pneu, alguém enfiou o pneu no vizinho, alguém jogou-lhe gasolina e alguém lançou-lhe um fósforo. A multidão divertia-se com aquela estranha dança do homem: ia de um lado para o outro, talvez acreditando ainda que tinha uma saída além da morte. Quando alguém recuperou a consciência e nos pediu um balde de água, o homem já estava já não se debatia. Estava inerte no chão, morto. 06/12/2012

 

2 comentários:

  1. Terrível!...Violência incitada, propagada e aceita, só exalta o selvagem que adormecia dentro de uma aparente civilidade.

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  2. Que loucura!
    Uma televisão não pode decidir o destino de um homem!

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