sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Reconhecimento de corpos

Recebemos os corpos uma semana após o sangrento acidente. Como não se sabia quem havia morrido, nós, os que não haviam recebido um telefonema dizendo que estava tudo bem e que não devíamos nos preocupar, tivemos que ir ao reconhecimento dos corpos. O responsável nos pôs numa sala ampla e limpa e desapareceu pela escuridão de um corredor, de onde ouvíamos de vez em quando vozes, passos e um irritante toque de telefone. A princípio procuramos nos manter serenos, afinal não sabíamos ao certo se tínhamos perdido um ente querido ou não, e não nos servia de nada chorar por antecipação. Algumas horas depois, entretanto, quando foi largamente ultrapassado o tempo de espera combinado e do corredor vinha apenas o mais absoluto dos silêncios, não deixamos de nos sentir indignados, revoltados, irritados. Quando finalmente o responsável reapareceu, deu-nos uma explicação pouco plausível para seu sumiço, voltou a desaparecer pelo corredor escuro, e passou a nos chamar um por um, fizemos as caras mais tristes de que éramos capazes. E os que voltavam do tal lugar onde estavam os corpos traziam as mesmas caras com que haviam entrado, e ficávamos sem saber se a pessoa perdera uma ente querido ou permanecia com aquela cara apenas por solidariedade para com os outros, que inevitavelmente haviam sofrido perdas.

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