sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Reconhecimento de corpos

Recebemos os corpos uma semana após o sangrento acidente. Como não se sabia quem havia morrido, nós, os que não haviam recebido um telefonema dizendo que estava tudo bem e que não devíamos nos preocupar, tivemos que ir ao reconhecimento dos corpos. O responsável nos pôs numa sala ampla e limpa e desapareceu pela escuridão de um corredor, de onde ouvíamos de vez em quando vozes, passos e um irritante toque de telefone. A princípio procuramos nos manter serenos, afinal não sabíamos ao certo se tínhamos perdido um ente querido ou não, e não nos servia de nada chorar por antecipação. Algumas horas depois, entretanto, quando foi largamente ultrapassado o tempo de espera combinado e do corredor vinha apenas o mais absoluto dos silêncios, não deixamos de nos sentir indignados, revoltados, irritados. Quando finalmente o responsável reapareceu, deu-nos uma explicação pouco plausível para seu sumiço, voltou a desaparecer pelo corredor escuro, e passou a nos chamar um por um, fizemos as caras mais tristes de que éramos capazes. E os que voltavam do tal lugar onde estavam os corpos traziam as mesmas caras com que haviam entrado, e ficávamos sem saber se a pessoa perdera uma ente querido ou permanecia com aquela cara apenas por solidariedade para com os outros, que inevitavelmente haviam sofrido perdas.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Casalzinho

I
Quando, ao meio do enterro, o senhor Adalberto resolveu nos constranger e, chorando, pôs-se a dissertar sobre o bom carácter do jovem casal defunto e sobre a merda que é a vida, compreendemos e perdoamos. Mas quando, à saída do cemitério, ele pôs-se à frente de todos nós para nos dizer que devíamos nos sentir culpados por termos tratado tão mal o jovem casal, tivemos vontade de enterrá-lo.

II
Com sorrisos e uma simpatia exagerada, andaram de andar em andar, de apartamento em apartamento, informando serem os novos inquilinos do sexto andar. Que é que podíamos fazer senão olhar incrédulos para aqueles dois palhaços e bater-lhe com a porta na cara?

Ele era um pouco mais alto do que ela, menos magro do que ela, com cerca de trinta e cinco anos de idade. Ela, embora com o rosto meio murcho, qualquer fisionomista podia atribuir-lhe menos de trinta anos. Um casalinho sem graça, insignificante. Ninguém se deu ao incómodo de dirigir-lhes mais do que as palavras de cumprimento. Chamaram alguma atenção e mereceram alguns comentários (brevíssimos) cerca de um mês depois, quando passaram a morar com uma garota e passaram a provocar muito barulho nas noites. Tornou-se normal ouvirmos a voz frágil, cansada, insuportavelmente irritante da tal garota chamar os nomes do casalinho. A tortura durava mais ou menos uma hora, e era intervalada por pequenas pausas que nos faziam pensar que podíamos finalmente dormir em paz, mas eis que de repente a vozinha voltava.

Pelo que eu soube dos brevíssimos comentários, o casalinho havia acolhido a garota a contragosto. Assim, não havia dado uma chave a pobre, o que a obrigava a bater a porta e chamar pelo casalinho todas as noites.

Era evidente o constrangimento, a vergonha dos três quando cruzavam connosco no elevador ou nas escadas, mas eles apenas desviavam o olhar e iam-se embora sem pedir desculpas, talvez por acharem que não havia perdão para o que faziam, talvez por soberba mesmo.

Quando houve o incêndio que carbonizou o casalinho, todos nós demos a culpa a garota. A polícia procurou-a em vão.

A mulher foi a primeira a morrer. O homem ainda consegui ser transportado para a ambulância, e as suas últimas palavras foram rigorosamente as seguintes: “Despertei assim que a garota chamou o meu nome pela primeira vez. Mas eu resolvi ficar na minha, afinal a sobrinha não era minha, era da minha esposa. Entretanto, depois de um certo tempo vi que a minha esposa não acordaria e resolvi ir abrir a porcaria da porta. Entretanto, ao abrir a porta do quarto recebi uma onda de calor e senti cheiro de fumo. Fechei a porta e voltei para cama, pois, como estava ainda meio sonolento, achei que eu estava num desses sonhos estranhos. Tive a noção dos factos quando a porta caiu e entrou fogo no quarto. Tentei acordar a minha esposa mas o sono dela era muito pesado.”