sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O outro lado da minha rua


Quando não tenho o que fazer, fico à janela a acompanhar os movimentos dos seis homens e duas mulheres que vivem na casa que fica do outro lado da minha rua. Eles alimentam-se exclusivamente no caixote de lixo que fica bem ao pé do seu portão, pelo menos é o que acho. Eles são amigos da Isabel, a minha empregada. Mal a vêem, correm em sua direcção e levam o lixo e põem-se a conversar. E quando ela dá meia volta e regressa, muitas vezes está a sorrir. Mas nem sempre foi assim, nem sempre eles foram simpáticos. Há oito meses, Isabel só ia deitar o lixo porque era obrigada a fazê-lo. É que eles revolviam o lixo encapuzados, e faziam um “olhar de assassino” para quem se atrevesse a observá-los por mais de dois segundos. Certa vez, um deles – que segundo Isabel, enerva-se facilmente e volta a acalmar-se só depois de fazer uma asneira – acertou em cheio a cara de curiosidade e nojo de uma certa senhora. Agora eles são amigos de toda a gente, ou quase. Sua preocupação relaciona-se com os homens da limpeza. Segundo aqueles funcionários públicos, aqueles homens e mulheres são quem emporcalha aquele lugar, e prometem fazer de tudo para que as autoridades os escorraçarem dali, o que é de todo improvável, visto que essa operação traria de volta a discussão sobre a mendicidade, a pobreza, e todas aquelas discussões inúteis. Quando não vejo sinal dos seis homens nem das duas mulheres, ponho-me a observar os ratos que pululam em torno do caixote de lixo. As autoridades fazem de tudo para exterminá-los, até mesmo comprá-los aos quilos. Mas parece que esses bichos caem do céu. Quando não vejo sinal dos homens e mulheres nem os dos ratos, e vejo apenas aquela casa em ruínas, fecho a janela e arranjo algo útil para fazer. 10/08/2012

Sem comentários:

Enviar um comentário