sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Um incidente banal


Era um dia de chuva e frio. Eu jazia na calçada de um rua transformada num rio. Carros passavam e causavam ondas, autênticos tsunamis, que se desfaziam em mim. Alguns automobilistas viam-me e faziam exclamações de pena, de indignação, de pavor até; mas não podiam parar, pois eram logo pressionados a seguir pelas buzinas do carros que vinham atrás. Os transeuntes não me podia ver; cobertos por guarda-chuvas, olhavam exclusivamente para o chão, empenhados na quase impossível missão de evitar as poças de agua. Tu me viste. Primeiro ao longe, porque vinhas sem guarda-chuva e andavas devagar, aparentemente na disposição de apanhar a maior quantidade de agua possível. Depois de perto, porque tropeçaste nas tuas próprias pernas e caíste bem ao meu lado. e ficamos ali estendidos. Pouco depois, olhaste-me longamente, certamente para ver se o teu coração se amolecesse e te obrigasse a me ajudar. O teu coração não se amoleceu entretanto, e, sem olhar em volta para ver se alguém se ria da tua queda aparatosa, te levantaste e te foste embora. Eu permaneci ali por horas, a tiritar, até que a chuva parou, as ondas que os carros causavam deixaram de me atingir, a minha roupa secou, e pude me levantar.

2 comentários:

  1. Inquietante o seu conto. Faz lembrar que muitas vezes somos nós a ignorar o que vemos ou a ser ignorados. Também está escrevendo um romance?! Muito legal, boa sorte e boas inspirações!
    Abraços.

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  2. olá seguindo,segui de volta bjs
    http://pinkbelezura.blogspot.com.br/

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