quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Linchamento



Uma madrugada, surpreendemos o nosso vizinho do lado esquerdo na nossa sala, roubando a nossa televisão. Chorando, o vizinho suplicou que o perdoássemos e que não tornássemos o caso público. Mas meu marido não podia deixá-lo ir embora sem antes censurá-lo severamente, afinal de contas o vizinho era uma das pessoas mais respeitadas do bairro. Que decepção!

Ao sair de casa, foi recebido por uma multidão que se juntara no quintal. Rodearam-no e puseram-se a vaiá-lo. E não foi difícil que os mais indignados lhe mandassem ora um pontapé ora um soco. Meu marido tentou inutilmente evitar que o vizinho fosse agredido, ganhando apenas algumas pauladas.

A certa altura uma voz gritou “morte”. Pouco depois a palavra era gritada por toda gente. O destino do homem já estava decidido. Do nada apareceu um pneu, alguém enfiou o pneu no vizinho, alguém jogou-lhe gasolina e alguém lançou-lhe um fósforo. A multidão divertia-se com aquela estranha dança do homem: ia de um lado para o outro, talvez acreditando ainda que tinha uma saída além da morte. Quando alguém recuperou a consciência e nos pediu um balde de água, o homem já estava já não se debatia. Estava inerte no chão, morto. 06/12/2012

 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Reconhecimento de corpos

Recebemos os corpos uma semana após o sangrento acidente. Como não se sabia quem havia morrido, nós, os que não haviam recebido um telefonema dizendo que estava tudo bem e que não devíamos nos preocupar, tivemos que ir ao reconhecimento dos corpos. O responsável nos pôs numa sala ampla e limpa e desapareceu pela escuridão de um corredor, de onde ouvíamos de vez em quando vozes, passos e um irritante toque de telefone. A princípio procuramos nos manter serenos, afinal não sabíamos ao certo se tínhamos perdido um ente querido ou não, e não nos servia de nada chorar por antecipação. Algumas horas depois, entretanto, quando foi largamente ultrapassado o tempo de espera combinado e do corredor vinha apenas o mais absoluto dos silêncios, não deixamos de nos sentir indignados, revoltados, irritados. Quando finalmente o responsável reapareceu, deu-nos uma explicação pouco plausível para seu sumiço, voltou a desaparecer pelo corredor escuro, e passou a nos chamar um por um, fizemos as caras mais tristes de que éramos capazes. E os que voltavam do tal lugar onde estavam os corpos traziam as mesmas caras com que haviam entrado, e ficávamos sem saber se a pessoa perdera uma ente querido ou permanecia com aquela cara apenas por solidariedade para com os outros, que inevitavelmente haviam sofrido perdas.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Casalzinho

I
Quando, ao meio do enterro, o senhor Adalberto resolveu nos constranger e, chorando, pôs-se a dissertar sobre o bom carácter do jovem casal defunto e sobre a merda que é a vida, compreendemos e perdoamos. Mas quando, à saída do cemitério, ele pôs-se à frente de todos nós para nos dizer que devíamos nos sentir culpados por termos tratado tão mal o jovem casal, tivemos vontade de enterrá-lo.

II
Com sorrisos e uma simpatia exagerada, andaram de andar em andar, de apartamento em apartamento, informando serem os novos inquilinos do sexto andar. Que é que podíamos fazer senão olhar incrédulos para aqueles dois palhaços e bater-lhe com a porta na cara?

Ele era um pouco mais alto do que ela, menos magro do que ela, com cerca de trinta e cinco anos de idade. Ela, embora com o rosto meio murcho, qualquer fisionomista podia atribuir-lhe menos de trinta anos. Um casalinho sem graça, insignificante. Ninguém se deu ao incómodo de dirigir-lhes mais do que as palavras de cumprimento. Chamaram alguma atenção e mereceram alguns comentários (brevíssimos) cerca de um mês depois, quando passaram a morar com uma garota e passaram a provocar muito barulho nas noites. Tornou-se normal ouvirmos a voz frágil, cansada, insuportavelmente irritante da tal garota chamar os nomes do casalinho. A tortura durava mais ou menos uma hora, e era intervalada por pequenas pausas que nos faziam pensar que podíamos finalmente dormir em paz, mas eis que de repente a vozinha voltava.

Pelo que eu soube dos brevíssimos comentários, o casalinho havia acolhido a garota a contragosto. Assim, não havia dado uma chave a pobre, o que a obrigava a bater a porta e chamar pelo casalinho todas as noites.

Era evidente o constrangimento, a vergonha dos três quando cruzavam connosco no elevador ou nas escadas, mas eles apenas desviavam o olhar e iam-se embora sem pedir desculpas, talvez por acharem que não havia perdão para o que faziam, talvez por soberba mesmo.

Quando houve o incêndio que carbonizou o casalinho, todos nós demos a culpa a garota. A polícia procurou-a em vão.

A mulher foi a primeira a morrer. O homem ainda consegui ser transportado para a ambulância, e as suas últimas palavras foram rigorosamente as seguintes: “Despertei assim que a garota chamou o meu nome pela primeira vez. Mas eu resolvi ficar na minha, afinal a sobrinha não era minha, era da minha esposa. Entretanto, depois de um certo tempo vi que a minha esposa não acordaria e resolvi ir abrir a porcaria da porta. Entretanto, ao abrir a porta do quarto recebi uma onda de calor e senti cheiro de fumo. Fechei a porta e voltei para cama, pois, como estava ainda meio sonolento, achei que eu estava num desses sonhos estranhos. Tive a noção dos factos quando a porta caiu e entrou fogo no quarto. Tentei acordar a minha esposa mas o sono dela era muito pesado.”

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Leão, um cão


Abro o portão, tiro a cabeça para rua e olho para todos os lados. Depois saio e fecho o portão atrás de mim. Meu celular toca. É o som de recepção de mensagens de texto. Tiro o celular do bolso da calça e leio a mensagem. Tenho que responder, caramba! Não digitei três palavras e ouço o ruído característico do carro do meu vizinho do lado esquerdo. Levanto a cabeça: o portão se abre e o carro começa a sair. Volto a por olhos no celular. Ouço passos vindos do meu lado direito. Levanto a cabeça: é uma mulher magra, baixa, cabisbaixa, insignificante. Volto a escrever a minha mensagem de texto. Irrompe uma gritaria histérica do meu lado esquerdo. É o meu vizinho. Ele está fora do carro e chama por um tal de Leão. Olho à volta para saber o que está acontecendo. A mulher que acabo de ver está agora deitada de costas no meio da rua, debatendo-se. Por cima dela está um cão. Não é possível distinguir-lhe a raça, mas é enorme. O meu vizinho está com as mãos na cabeça. De repente dá meia volta e entra no seu quintal. Eu permaneço no mesmo lugar, sem saber o que fazer. O vizinho reaparece, com um pau numa mão e uma coleira noutra. À esta altura a senhora já não se debate, estando deitada de costas, as mãos abertas, sangue espalhado pelo seu corpo inerte e pelo chão. O cão abocanhou um dos pés da senhora e parece que tenta arrastá-la. O vizinho volta a chamar por Leão. O cão dá meia volta e vai ao encontro do dono, abanando a cauda. 15/08/2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O outro lado da minha rua


Quando não tenho o que fazer, fico à janela a acompanhar os movimentos dos seis homens e duas mulheres que vivem na casa que fica do outro lado da minha rua. Eles alimentam-se exclusivamente no caixote de lixo que fica bem ao pé do seu portão, pelo menos é o que acho. Eles são amigos da Isabel, a minha empregada. Mal a vêem, correm em sua direcção e levam o lixo e põem-se a conversar. E quando ela dá meia volta e regressa, muitas vezes está a sorrir. Mas nem sempre foi assim, nem sempre eles foram simpáticos. Há oito meses, Isabel só ia deitar o lixo porque era obrigada a fazê-lo. É que eles revolviam o lixo encapuzados, e faziam um “olhar de assassino” para quem se atrevesse a observá-los por mais de dois segundos. Certa vez, um deles – que segundo Isabel, enerva-se facilmente e volta a acalmar-se só depois de fazer uma asneira – acertou em cheio a cara de curiosidade e nojo de uma certa senhora. Agora eles são amigos de toda a gente, ou quase. Sua preocupação relaciona-se com os homens da limpeza. Segundo aqueles funcionários públicos, aqueles homens e mulheres são quem emporcalha aquele lugar, e prometem fazer de tudo para que as autoridades os escorraçarem dali, o que é de todo improvável, visto que essa operação traria de volta a discussão sobre a mendicidade, a pobreza, e todas aquelas discussões inúteis. Quando não vejo sinal dos seis homens nem das duas mulheres, ponho-me a observar os ratos que pululam em torno do caixote de lixo. As autoridades fazem de tudo para exterminá-los, até mesmo comprá-los aos quilos. Mas parece que esses bichos caem do céu. Quando não vejo sinal dos homens e mulheres nem os dos ratos, e vejo apenas aquela casa em ruínas, fecho a janela e arranjo algo útil para fazer. 10/08/2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Beco sem saída


A jornada de Sónia havia, finalmente, chegado ao fim. Valera-lhe o mesmo de sempre, mas não devia queixar-se, sabia de cor o fim do seu trabalho: manter-se viva e palidar as incertezas tão certas que a acompanhavam ao longo da sua biografia. Então meteu-se no autocarro, e pôs-se logo a conversar qualquer coisa com uma mulher que se achava ao seu lado (provavelmente colega sua). A sua interlocutora colaborou vivamente. Talvez por medo daquela estrada que dava ao inferno: quanto mais se aproximavam do destino, menos luz havia e menos gente as acompanhava. Mas chegaram. E Sónia pôde fugir das meditações em torno de seu ofício e de sua existência que fazia sempre que se achava sozinha e quando sentia que seus companheiros de viagem tinham a mesma cara que a sua, a de tristeza. “O convívio pode não resolver os problemas, mas os adia. E se calhar quando os reencontrarmos estaremos menos frágeis,” pensava. E então estava na hora de ir para cama. Já não era longe. Andou uns poucos passos e deteve-se num portão. Os seus 1.60 de altura não bastavam para ver, por cima deste, o que acontecia no interior da casa. Mas pôde ver lâmpadas acesas e ouvir vozes de pessoas a conversar. Com destreza de ladrões experientes abriu o portão e dirigiu-se ao cubículo que estava no fundo do quintal da casa. Aqui é que era sua casa. Tirou, do ombro, a pesada bolsa e sentou-se no degrau da porta para apanhar um ar. Mas este estava frio, fustigando suas pernas desnudas e seus bracinhos. Levantou-se, às pressas, para reencontrar o conforto do seu lar (abafado por aquelas alturas) , mas a porta abriu-se com facilidade e rapidez espantosas, sem precisar da chave. Assustou-se. E ficou largos segundos com medo de acender a lâmpada. Que seria? Finalmente colocou a mão o interruptor. Não por coragem: não sentiu a cama que ficava mesmo na entrada. Acendeu aquela lâmpada que mais assombrava que iluminava para confirmar o facto. Não ousou emitir um som qualquer que exprimisse seu desespero. Quem é que o ouviria? Chorou parta si mesma tudo que pode, em todas posições, até ver, num dos cantos do cubículo vazio, um papel sujo e amarfanhado, que não teria o convidado para seu pranto se não tivesse pensado no porquê de terem levado tudo e deixado somente aquilo. Arrastou-se até ele e leu: “desculpa-me, Sónia. Deixaste-me sem saída.” O bilhete não a abalou. Havia carregado tanto peso, que custava acrescentar uns quilinhos? E ficou ali, calma, já sem chorar. Não a assustavam mais aquelas quatro paredes horrendas e aquele tecto decadente, pelo qual via as estrelas sem o brilho habitual. Elas eram ofuscadas pela cacimba e ela nunca se desembaraçara de suas coisas, as coisas da vida. Ao amanhecer, dona Joana, a proprietária do cubículo e da casa grande, dirigiu-se aos fundos do seu quintal para cobrar mensalidades atrasadas. A sua paciência esgotara-se, estando decidida a expulsar a inquilina. Aliás, nenhuma das desculpas de Sónia a haviam convencido. “Como é que ela não pode me pagar se faz dinheiro todos dias,” pensava. Seus filhos a acompanharam, dispostos a intervir caso fosse necessário o uso de seus músculos. Mas aquele aparato era desnecessário. Encontraram Joana a flutuar, apoiada apenas por uma corda que partia do pescoço e terminava numa daquelas janelas altas e sem vidros. Houve o habitual susto de quem vê, inesperadamente, um morto. Os filhos de dona Joana saíram sem sequer se preocupar em confirmar a dona do cadáver. Horrorizou-lhes aquele olhar de espanto e fixo no nada. Dona Joana, tentando entender qualquer coisa, viu o papel sujo e amarfanhado algures e, com medo do seu conteúdo, leu: “desculpa-me por fazer isto na sua casa. Não tive alternativa.”

sábado, 7 de julho de 2012

Outro incidente banal

Eu ia para um lugar qualquer. Andava tranquilamente pela rua da Paz, na zona das mangueiras. Quando estava na zona dos coqueiros, um pouco antes da Padaria Ganha Pouco, um carro azul me ultrapassa em disparada, para logo reduzir drasticamente a velocidade, me obrigando a investir todas as minhas forças no travão para não batê-lo, e ainda assim ficar a centímetros disso. Afinal ele ia entrar pela direita, como só agora indicava pelas piscas. “Filho desta, filho daquela, isto da tua mãe, aquilo da tua mãe”, fui dizendo, furiosíssimo. O mau condutor, um homenzinho de um metro e meio de altura, tirou a cabeça pela janela e proferiu palavras de indignação e incompreensão, como se eu não tivesse todo o direito de insultá-lo, como se ele não tivesse colocado em risco uma preciosa vida humana. “Desça se tens culhões!”, disse eu, cheio de vontade de partir-lhe a cara, mas quase certo de que o fulano não desceria. Ele desceu, mas desceu com uma pistola. Se eu pedisse por Deus para que não atirasse, ele atiraria. Se quisesse viver tinha que desafiá-lo. “Sim, pode atirar. O senhor portou-se mal e agora quer me matar. Esteja à vontade. Atira.” A nossa discussão havia chamado a atenção de muitos transeuntes. Talvez por isso ele levantou a camisa, mostrou a sua barriga de cerveja e enfiou a arma na bermuda. Eu devia sair dali, antes que o homenzinho mudasse de ideias. Entretanto, quando ia passar pelo entroncamento entre as ruas da Paz e da Revolução, o sinal ficou vermelho e vi-me lado a lado com ele. “Você! Vou te mater, você!”, disse. Mas desta vez não me mostrou a pistola. 05/07/2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Um incidente banal


Era um dia de chuva e frio. Eu jazia na calçada de um rua transformada num rio. Carros passavam e causavam ondas, autênticos tsunamis, que se desfaziam em mim. Alguns automobilistas viam-me e faziam exclamações de pena, de indignação, de pavor até; mas não podiam parar, pois eram logo pressionados a seguir pelas buzinas do carros que vinham atrás. Os transeuntes não me podia ver; cobertos por guarda-chuvas, olhavam exclusivamente para o chão, empenhados na quase impossível missão de evitar as poças de agua. Tu me viste. Primeiro ao longe, porque vinhas sem guarda-chuva e andavas devagar, aparentemente na disposição de apanhar a maior quantidade de agua possível. Depois de perto, porque tropeçaste nas tuas próprias pernas e caíste bem ao meu lado. e ficamos ali estendidos. Pouco depois, olhaste-me longamente, certamente para ver se o teu coração se amolecesse e te obrigasse a me ajudar. O teu coração não se amoleceu entretanto, e, sem olhar em volta para ver se alguém se ria da tua queda aparatosa, te levantaste e te foste embora. Eu permaneci ali por horas, a tiritar, até que a chuva parou, as ondas que os carros causavam deixaram de me atingir, a minha roupa secou, e pude me levantar.