segunda-feira, 7 de novembro de 2011

XFobia

Os meus amigos tinham medo de fantasmas, do escuro, de cobras, de sapos e de meia dúzia de papões que, segundo eles, assombravam as noites da vila. Eu, inexplicavelmente, passava a vida a fugir de um certo animal que lhes era indiferente, e que se lhe causasse alguma coisa, causava apenas nojo, coisa que era rapidamente resolvida com uma simples cuspidela. Idiota! O bicho era insignificante, quer em tamanho como em força; eu podia assustá-lo e pô-lo a correr com um simples movimento brusco; e podia esmagá-lo com o calcanhar sem precisar cerrar os dentes.

O curioso é que poucas vezes eu via o animalzinho. Na verdade via-o em qualquer animal, objecto ou imagem com tamanho similar. E às vezes tinha pesadelos com ele. Por exemplo, achava-me numa sala sem porta nem janela, com ele e milhares de seus irmãos espalhados pelo chão, pelas paredes e pelo tecto.

Uma das consequências de tudo foi eu evitar sair de casa para não correr o risco de vê-lo. Mas, por puro azar, o meu segredo foi descoberto por Alberto. E ele passou a divertir-se em me assustar. Olha o animal ai ao seu lado, dizia ele gargalhando. Certo dia resolveu radicalizar e jogou-me o animal no colo. Como eu disse, o bicho era insignificante, quer em tamanho como em força. Mas não consegui livrar-me dele e acabei desmaiando. Quando acordei o bicho estava no meu peito. Tornei a desmaiar.

É claro que Alberto devia pagar por aquilo. Mas, felizmente, não tive de praticar as minhas aulas de artes marciais. Noutro dia, tentando jogar-me o animal, cometeu uma imprudência que fez o bicho entrar-lhe na camisa. Sentiu o frio e o espernear do bicho e desatou a gritar histericamente. Alguém sugeriu que tirasse a camisa. Tirou a camisa, mas a pressa fez o animal entrar na bermuda. Tirou a bermuda, mas a pressa, de novo, fez o animal entrar na cueca. E, nu, saiu correndo pelo rua acima, ante o olhar de pessoas que, ouvindo os gritos, se haviam posto às janelas. Alberto passou a ter medo do bicho e me deixou em paz.

Hoje, como homem feito que sou, não posso ter medo de um animalzinho daqueles. O bichinho apenas me causa nojo, coisa que resolvo rapidamente com uma simples cuspidela. Entretanto, tive o azar de trabalhar numa cidade onde aqueles animalzinhos abundam. Assim, mal volto do trabalho, verifico, metro quadrado por metro quadrado, se a casa está livre dos animais.
05/11/2011

1 comentário:

  1. es bom, xfobia, esta num ponto alto da criatividade. Viste essa troca de medo, faz-me pensar ainda, gostei!!

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