terça-feira, 2 de agosto de 2011

Como me tornei persona non grata em Insular

Surpreendeu-me o convite do Professor M. para seu assistente: eu não fora dos seus melhores estudantes e o problema que íamos resolver, não me lembro agora qual, era dos mais complexos. Mas como eu era um jovem recém-formado, sem nenhuma perspectiva de encontrar trabalho, aceitei o convite se pestanejar. Na véspera, dei a boa notícia a uns amigos, mas eles, ao invés de me parabenizarem e me desejarem boa sorte, me fizeram lembrar que o professor M., entre tantos defeitos, era uma pessoa “muito esquisita”, e que por isso eu devia fazer de tudo para ser pouco, pouquíssimo, espaçoso. Senti uma ponta de inveja na advertência dos meus amigos. Mas no dia da viagem eu iria saber que eles estavam certos. Primeiro o professor me obrigou a estar no aeroporto duas horas antes do voo. Quando ele chegou, procurou-me com os olhos e quando me achou perguntou: “és mesmo tu?” Meu espanto era tanto que não consegui responder. Ele tomou o meu silêncio como um sim. E permanecemos calados durante toda a viagem — ele entretido com um livro, eu com receio de importuná-lo.

Chegados a cidade de Insular, já fora do aeroporto, o professor M. atirou-se aos braços das cinquenta pessoas que o recebiam, fazendo um sorriso que eu nunca vira nos quatro anos que o via quase todos os dias na faculdade. Parou de sorrir apenas quando alguém quis saber se ele tinha a certeza absoluta de que resolveria o problema. O professor tentou a seguinte saída: “meus amigos e minhas amigas, na boas coisas da vida, nas coisas que realmente importam, o mais importante não é o fim, a meta, a chegada, mas sim o caminho, o percurso, o processo. O que eu vos posso dizer agora é que estamos no bom caminho. Sei por que os meus colegas não conseguiram resolver o problema e se tudo correr dentro do previsto teremos a solução muito antes do que imaginamos.”

O professor se alojou o único hotel da cidade e eu o meu lugar foi uma pensão. Lá viviam alguns dos meus colegas dos tempos da faculdade. Gente com quem, aparentemente, podia tratar dos ossos do ofício. Mas nenhum deles me deixava dizer que o professor me contratara porque precisava contratar alguém, que não me deixava sequer estar a par dos avanços e recuos no trabalho. Como facilmente vim a saber, aquelas pessoas, sem excepões, eram tão egoístas que só conversa sobre assuntos do seu interesse, e enquanto tivessem razão.

Queixei-me às autoridades, várias vezes. Afinal, tanto eu como o professor M. éramos pagos pelas autoridades da cidade. Mas ninguém moveu uma palha. O problema da cidade era muito antigo. Muitos experts no assunto haviam declarado sua pequenez diante do caso. O professor era a última esperança. Por que é que eles haviam de perder tempo com questões banais?

O gerente da pensão, que também era filho do dono, gostava de falar para todo mundo das suas pretensões literárias. Não tinha nada publicado, apenas uns quantos contos espalhados pela net. Mas saía de si sempre que alguém ousasse fazer-lhe uma crítica. A sua resposta era a seguinte : “não me acham um génio? Pois vão tirar todas as dúvidas num 10 de Dezembro desses, quando me virem em Estocolmo recebendo do rei da Suécia o diploma Nobel e o cheque chorudo. ”

Conseguía ter conversas normas apenas com o velho dono da pensão, apesar dos seus constantes acessos de tosse. Mas como ele falava tão baixo, eu passava o tempo dizendo “como?” que às vezes acabava irritando-o.

Eu não era perfeito, também tinha defeitos. Por exemplo, por muito tempo custou-me a crer que a Sónia — que peitinhos! Que bunda — também estava interessada em mim. A mesma insegurança levou a que uma noite eu fosse assaltado: depois de trancar a porta, quis certificar-me de que estava mesmo trancada e que a fechadura não poderia ceder ao mínimo empurrão. Abri e fechei a porta tantas vezes que acabei danificando a fechadura. Depois de apagar a lâmpada da sala, quis ter a certeza de que aquele não seria o último dia da lâmpada. Acendi e apaguei umas quantas vezes que ela acabou se fundindo. Consequência: um assaltante, que já devia ter tentado tantas vezes, entrou na minha casa com a maior das facilidades. Eu ouvi um barulho estranho, mas quando, na ponta dos pés, fui a sala para surpreendê-lo acendendo a lâmpada, lembrei-me que aquela esta fundida. O meliante foi-se embora tranquilamente, levando o que pôde.

Agora vamos ao mais importante: como é que me tornei persona non grata naquela cidade quase perdida? É que, numa das festinhas que fazíamos para celebrar “o simples facto de estarmos vivos”, na hora do brinde, em vez de puxar o saco de alguém ou dizer alguma outra babaquice, desatei a enumerar e descrever os defeitos de cada um dos meus “amigos”. Depois de minutos de perplexidade, e começarem a acreditar no que estavam ouvindo, arrastaram-me para fora da casa. À saída, uns pegaram-me pelos pés e outros pelas mãos, contaram até três e jogaram-me na calçada. Fazia chuva e muito frio.
31/07/2011