segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um casal e tanto

Durante onze meses, José António, um operário de meia idade, manteve a sua mulher amarrada à uma corrente (suficientemente comprida para permiti-la fazer os trabalhos domésticos), soltando-a apenas durante as poucas horas que ficava em casa. E o caso só foi descoberto porque uma amiga da pobre mulher foi visitá-la fora do horário habitual. Aterrada, chamou imediatamente a polícia.

O caso despertou o especial interesse da doutora Joana, uma defensora ferrenha dos direitos da mulher. No seu característico tom amigável, dirigiu-se à mulher nos seguintes termos:

— Minha amiga, eu posso te livrar desse homem para sempre. O que você precisa fazer é não retirar a queixa. E deixa o resto comigo.

— Não posso — balbuciou a mulher, cabisbaixa.

— O quê? — disse a doutora, indignada. — Pelo amor de Deus! Mais um caso que não vai dar em nada. Será que você não tem noção do perigo que corre nas mãos desse homem? Presta atenção! Você não pode perder a oportunidade de pôr esse homem na cadeia. Eu e você sabemos que ele não vai mudar. Nunca.

Silêncio.

A doutora preparava-se para sair da sala, quando a pobre mulher disse, agora com alguma firmeza, mas ainda cabisbaixa:

— Foi de mútuo acordo. Ele não me forçou...

Como a doutora não reagisse, continuou:

— O que acontece, doutora, é que nós queremos ter um filho e ele só queria ter a certeza absoluta de que o filho seria mesmo dele.

— Mas para isso ele precisava te acorrentar, te tratar como um animal? — disse a doutora, agora não tão indignada, na verdade sentindo-se apenas obrigada a dizer alguma coisa.

— É que eu e ele sabemos que eu não presto — disse a pobre mulher.

08/06/2011

1 comentário:

  1. Es um verdadeiro, um esritor e tanto. Adorei seu texto essa maneira criativa, de por a mocambicanidade na escrita, parabens!

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