quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Mártir

Quando eu estava na casa dos vintes, acreditava que podia mudar o mundo, ou pelo menos o meu país. Todas quartas-feiras tinha reuniões clandestinas nos fundos do bar Escondidinho. Uma chatice. Muitos dos participantes chegavam ao encontro completamente embriagados, e o nosso líder, em vez de explicar as nossas próximas acções, gastava todo tempo a repreendê-los. Assim, o número de revolucionários ía diminuíndo, até um certo dia o nosso líder obteve informações que fariam o governo cair. Disse-nos. E mal pudemos dormir naquela noite.

No dia seguinte, antes da hora marcada, estavamos todos na sala, lúcidos. Antes dele contar-nos a novidade, ouvimos tiros. Ninguém se assustou, estavamos num bairro degradado. Normalmente o nosso líder falava aos gritos e expelindo saliva para todos cantos, mas naquele dia ele falava calmamente, com pausas; pelo que foi ao cabo de um minuto que nos apercebemos de que ele fora atingido e pedimos socorro.

Coube a mim a tarefa de, em nome de todos, visitá-lo no hospital e informá-lo da versão da polícia sobre o incidente.

— Foram eles? — perguntou o nosso líder assim que entrei no quarto.

Eu assenti com a cabeça.

— O importante é que vocês acreditem na causa e continuem a lutar. — disse ele, solenemente.

— Mas foi um acidente. A polícia perseguia um... um assaltante — disse eu.

— O quê? Então vocês devem me tirar daqui. Façam o impossível. Eu não posso morrer assim — disse o nosso líder, agitado, não tendo pulado da cama porque estava muito debilitado.
01/06/20011

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