sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Por ela

Uma carcaça alimentaria Sónia pelo resto do Inverno, mas porque falava-se do fim da peste, resolvi levar duas.

Estava embrulhando as carcaças numa mortalha e pensando no meio de transportá-las (na cabeça, no ombro ou simplesmente abraçá-las) quando lembrei-me que não podia sair pelo portão. Como sempre, o chefe da segurança estaria bêbado e dormindo, mas o novo guarda, como qualquer recém-contratado que se preze, estaria com olhos bem acesos. Ocorreu-me então sair pela janela. Os corpos tinham sido metidos nas gavetas há pouquíssimo tempo, podiam se esborrachar no chão, sangue se espalharia por todo lado, alguém podia ver. Mas era a única saída.

Já no carro, dei-me por estupefacto ao notar que, ao invés do habitual e inevitável remorso, sentia uma grande satisfação, aquele que toda gente sente depois de cumprir uma missão quase impossível. Se não tivesse a certeza absoluta de que mais de metade dos telefones da cidade estavam grampeados, ligaria para Sónia para gritar, triunfante: “Consegui”.

Chegado a casa, Sónia não fez o drama habitual: não me pediu desculpas pelos seus hábitos alimentares imorais e ilegais. Simplesmente esboçou um sorriso, deu-me um beijinho e arrastou a encomenda para cozinha. Eu fiquei na sala vendo televisão, tentando convencer-me de que os sons das machadadas e punhaladas que vinham da cozinha me causavam indignação e nojo, e não apetite.
20-01-2011

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