segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O pedinte


Completamente entregue aos meus pensamentos, caminhava sobre a rua da Independência, em direcção à paragem de autocarros, quando, de súbito, um vulto obstruiu-me o caminho. Antes de voltar a mim, preparei-me: se fosse um vendedor, o dispensaria seu latim e os descontos, eu estava sem dinheiro; se fosse um activista de direitos humanos, um ambientalista ou um religioso, diria que estava frontalmente contra o que defendia e aceitaria um panfleto apenas por polidez.

 

Quando, sentindo-me armado, voltei a mim, vi um homenzinho magríssimo, circunscrito a um metro e sessenta.

 

— Desculpa-me por fazer parar um pessoa com o senhor — começou, timidamente, sem o poder de persuasão dos meus habituais interlocutores. Aliás, mal conseguia olhar-me nos olhos. — Eu sou da cidade da Matola. Na semana passada soube que era pai. Eu me envolvi com a moça no natal antepassado. Apesar de estar desempregado, os meus pais exigem que eu cuide da menina (na verdade, eles estão muito felizes por serem avós, só querem que eu me esforce). Ontem um amigo de um tio meu ligou-me, prometendo-me um trabalho. Hoje eu saí de casa muito cedo mas até agora não consegui localizar o homem. E eu não tenho dinheiro para regressar a Matola nem para pagar o dinheiro que eu pedi emprestado para poder vir até aqui. Mano, podias me fazer ver dez contos?

 

Esforcei-me por ouvi-lo pacientemente, embora ligeiramente incomodado com os trapos que ele trajava.

 

— Infelizmente não posso ajudar-te, mano. Também estou mal — disse eu.

Não quis ver a reacção do que eu acabara de dizer. Mas um transeunte empurrou-me, e tive de precaver-me de uma queda. Surpreendentemente, vi uma sincera compreensão nos olhos do homenzinho.

 

Sentado no autocarro, num acento com janela, tornei a ver o homenzinho, abordando outra pessoa. “Ele está mesmo a precisar de dinheiro”, pensei eu, levemente atacado por remorsos. Tive vontade de descer para ajudá-lo, mas o autocarro arrancou.

 

 

1 comentário:

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