sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fim da jornada

A reunião terminou três horas depois do previsto, à meia noite. Corri imediatamente para a paragem de autocarros. Conforme esperava, estava apinhada de gente, barulhenta... A confusão chegava ao auge sempre que um autocarro parasse. Tentavam todos entrar ao mesmo tempo, impedindo por vezes que os que ali desciam pudessem fazê-lo. Determinado a não bater a porta dalgum conhecido ou a esperar o amanhecer fazendo dívidas nalgum bar, resolvi entrar na luta. Tive sorte. Apesar da minha baixa estatura, consegui entrar na primeira tentativa. Mas fiquei entre os que, de pé, ocupavam o corredor. Faltava ar. De vez em quando, pisando uns e empurrando outros, tentava em vão colocar a cara em direcção a janela mais próxima. Não valia a pena queixar-me ao cobrador; conseguiria apenas enfurecê-lo, o que o levaria a encontrar meios de fazer entrar mais pessoas. Mais inútil seria apelar ao motorista: à este concerniam apenas os assuntos do volante.

Estavamos perto da minha paragem quando uma voz masculina, quebrando alguns minutos de silêncio, disse, aterrada:

— Esta mulher está morta.

A tal mulher perdera os sentidos um pouco antes. O pobre homem percebeu-o apenas quando virou-se para ver a pessoas que insistia em pendurar-se nas suas costas, apesar das suas ligeiras cotoveladas de protexto.
Apertamo-nos ainda mais, perminitindo que a mulher pudesse ficar deitada no corredor.

— Eu não disse que ainda havia espaço — disse o cobrador, involuntariamente, num tom triunfante, mas arrependeu-se em seguida diante da censura nas dezenas de olhares que logo lhe cobriram.

— Está desmaiada apenas — disse alguém, após um breve exame.

Começaram as explicações do incidente. Uns defendiam ferrenhamente que a mulher desmaira por causa da mistura desastrora dos cheiros. Com a mesma convicção outros defendiam uma outra causa qualquer. A razão podia estar com uns assim como com outros. Mais urgente era levar a mulher ao hospital. Apareceram voluntários. Eu me afastei o quanto pude da enferma. Estava mais interessado com o que me aconteceria depois de chegar ao meu destino. Entre a paragem e a minha casa, a rua era estreita, cheia de buracos e escura. Se aquele fosse um dia de azar, podiam-me aparecer bandidos do nada. Estava particularmente preocupado porque, depois de pagar o bilhete, não me restou um único centavo.
Adérito Mazive

1 comentário:

  1. Sempre é muito bom passar aqui e ficar...
    Gde abraço, em divina amizade.
    Sonia Guzzi

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