domingo, 31 de outubro de 2010

Um aspirante à escritor

Eu gostava do meu trabalho, a literatura é que me queria só para si. Indiferente aos elogios ou broncas do meu chefe, passava quase todo dia na net, lendo contos de todos os géneros. Findo o expediente, voava para casa, sentava-me à mesa, e, ávido,começava a escrever. A inspiração sempre me disiludia. Ao cabo de seis horas procurando palavras, eu nunca tinha mais do que duas páginas. Depois punha-me a ler o que acabara de escrever, uma, duas, três, e tantas vezes, procurando descobrir-lhe genialidade. Se, no final, o textículo não me agradasse, e me fizesse pensar que não era suficientemente talentoso para um dia viver da escrita, que devia era me dedicar seriamente ao meu trabalho, eu tomava qualquer coisa para dormir. Era um método não saudável, covarde, eu sabia. Tentar dormir ao som duma FM seria boa ideia se eles não passassem a vida dizendo a hora e o dia, fazendo-me lembrar de que, fosse em quantidade como em qualidade, não estava em condições de participar de nenhum dos concursos que decorriam.

No dia seguinte, às seis da manhã, sem piedade, o despertador interrompia-me o sono. Mas eu permanecia na cama, de olhos abertos. Ficava esperando de inspiração para a escrita e para a vida. Inúteis que tinham sido as minhas leituras de clássicos, de uma dúzia de livros de auto-ajuda, e de algumas biografias de homens e mulheres notáveis, só mesmo o acaso me podia salvar.

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