segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A praga

Chamaram de pacifismo o que os proibia de chegar às vias de facto. Eu chamei-lhe de cobardia. E porque eles não desperdiçariam o primeiro instante de coragem que o acaso lhes proporcionasse, resolvi ceder aos apelos do meu frágil corpo e limitar o meu dia-a-dia ao meu quintal. Posição cómoda, comformista, dirão. Mas nada mais podia fazer sendo eu quem era: uma mulher quase octogenária, há muito viúva, sem nenhum dos filhos vivos. Era a mulheres como eu que podiam acusar de prover aquela estranha praga de formigas que, numa clara usurpação das habituais tarefas dos mosquitos, não deixavam que nenhum ser humano dormisse enquanto durasse o Inverno. Não deixei, porém, de ver o ódio dessa gente. Quase todos dias surpreendia alguém bisbilhotando meu quintal, procurando provas irrefutáveis do meu crime, como diziam. Mais corajosos eram certos rapazitos cujo divertimento era gritar-me impropérios e pôr-se em fuga. No começo eu tentava segui-los. Desisti quando sabiamente descobri que a minha saúde não permitiria alcançar o mais preguiçoso molusco.

Por pura diversão, para livrar-se do tédio e solidão, resolvi preparar a minha morte. Mil ideias me surgiam. Mas a mais delirante foi certamente a que consistia em seleccionar os melhores momentos da minha vida, com o objectivo de passar as imagens na minha mente no momento da verdade, como uma espécie de homenagem a mim mesma.

No entanto, naquela manhã fria e nublada em que um burburinho me despertou, senti que o preparo de nada me servira. A princípio pensei que fosse mais uma marcha que esporadicamente organizavam para reivindicar o direito ao sono. As palavras de ordem eram gritadas com particular vigor, e os manifestantes não estavam na rua, haviam invadido o meu quintal. Em vez da resignação que esperava, senti esperança. E sem que deliberasse, vi-me espreitando pelo buraco da fechadura, na esperança de que uma daquelas almas fosse piedosa.

Apenas o pastor, pelas razões óbvias, havia tentado dissuadi-los a cometer um acto daqueles, condenável tanto aos olhos dos homens como Dele. Estava recolhido a sombra de uma mafurreira situada algures. Desolado. Certamente, as ovelhas mais desgarradas haviam clarificado que não permitiriam que ninguém, fosse quem fosse, lhes impedisse de alcançar seu objectivo.

Não havia dúvidas, o meu dia chegara. Encolhi-me num canto, com as mãos na cabeça, a espera do golpe que me levaria, como se naquela posição o tal golpe pudesse ser menos doloroso e mais eficaz.

Mas o golpe não chegava. Volvidos alguns minutos, a posição tornou-se desconfortável, quase todas as minhas articulações me doíam. Voltando a dar ouvidos ao exterior, me apercebi que o barulho diminuíra, os insultos já não eram tão graves. Teriam esgotado seu vasto reportório de impropérios? Teriam novamente temido os baldes de sangue que as formigas sugavam? Teria, o chefe da aldeia, regressado de onde se bandeara há alguns dias? Sim. Pois só ele podia conter a agitação da populaça. Aliás, eu continuava viva porque ele não permitira. Ele usava o argumento de que ninguém conseguira provar que eu era a dona das formigas.

Nenhuma resposta certa. Conforme vim a saber, o que sucedeu foi que alguém, sem pretensões de parar a manifestação, teria se questionado: “e se ela não for culpada!” Assim se foi a coragem dos aldeões.

Ao meio dia, não havia sinal da balbúrdia.

Chegados àquele ponto, o futuro tornara-se demasiado imprevisível. Nada me restava fazer senão recorrer a casa do meu protector. Esperei o anoitecer e me arrastei até lá.

Era público que a mulher do chefe da aldeia não morria de amores por mim. Só sob coação ela me daria abrigo. Por desconfiar do seu reconhecidíssimo bom coração, resolvi agir à bruta. Bati a porta com toda violência que me era possível, e com as forças que me sobraram gritei:

— Comadre, não tenho onde ir!

Cerca de um minuto depois, a porta abriu-se, e surgiu uma lamparina. Para poder me ver, a comadre adiantou o rosto, colocando-se ao alcance da luz (aquele rosto era tão murcho quanto o meu, mas naquele momento não percebi porque era a minha imagem que todas crianças eram ensinadas a repugnar).

— Meu marido não está!

Ela ia dizer esta frase e fechar a porta. Eu a obriguei a recuar antes mesmo que a concluísse.

Espantou-me a passividade da comadre. Noutras ocasiões teríamos começado uma discussão que duraria o resto da noite. Caí em mim quando a ouvi trancar a porta imediatamente a seguir a sala e depois a do seu quarto. Eu devia dormir na sofá. Móvel que, como ambas sabíamos, era uma autêntica colónias de formigas.

Era absolutamente inútil tentar dormir, resolvi dar uma volta pela aldeia para fazer tempo. Matar saudades, apesar da escuridão esconder sua beleza. Mal passei pelas primeiras casas, comecei a ouvir crianças chorando, adultos sacudindo roupa de cama e me chamando nomes. No entanto, havia quem dormisse. Sim. Eram os que tinham camas, e podiam assim beneficiar-se da recente técnica de evitar formigas. Tendo colocado recipientes cheios de águas nos quatro pés da cama, as formigas que ousassem alcançá-los morriam afogadas naqueles pequenos mares.

Num lugar que jamais poderei precisar, fiquei esgotada. Noutras ocasiões bastava fingir que era a hiena ou a coruja que diziam que eu me transformava em. Agora não conseguia livrar-me daquela vontade de pousar a cabeça e fechar os olhos. Estava em plena queda quando uma mão me segurou. Era o chefe da aldeia. Senti pelo cheiro.

Na manhã seguinte a balbúrdia estava transferida para a fronte da casa do chefe da aldeia. Os populares souberam que o homem se ausentara para tratar de assuntos pessoais, e não para procurar a solução para a praga junto das autoridades, conforme vinha fazendo há dez anos, sem falhar.

― Calma, calma, meus irmãos! ― começou o chefe da aldeia, sobrepondo-se as centenas de vozes, e confirmando sua autoridade sobre os aldeões. ― Eu não me esqueci das minhas responsabilidades. Tanto é (o velho levantou ainda mais a voz par ofuscar alguns murmúrios) que vou à cidade agora mesmo.

As dúvidas acabaram quando a comadre saiu pela porta com uma maleta na mão. Todos sabíamos que continha. Três mudas de roupa: a primeira para o dia em que andaria de departamento em departamento a procura de alguém que lhe marcasse uma audiência com o administrador. A segunda para o próprio dia da audiência, que, de acordo com o administrador, afinal não precisava ser marcada. A terceira muda era para o regresso, o dia em que meia aldeia lhe esperaria ansiosamente no cais a solução do problema.

Três dias depois, as dez da manhã, estávamos todos no cais, esperando o homem, torcendo para que fosse aquela a vez da solução definitiva. Antes que nos irritássemos com a espera, um barco nos surgiu no horizonte. Exclamações de entusiasmo. O barco aproximou-se e pudemos ver os rostos dos viajantes. Silêncio. Estavam todos desanimados como sempre. Apenas o doutor W parecia indiferente aos fracassos anteriores. Desfez o sorriso apenas quando alguém queixou-se da demora que a solução levava. “Como todas coisas importantes da vida, o mais importante é o processo, o caminho, e não propriamente a chegada”, disse ele naquele tom professoral. Conhecendo-o como o conhecia, posso garantir que falava a verdade, que não investigava apenas por investigar, por investigação, por obrigação., como alguns diziam. Mesmo porque a parte mais dura e chata do trabalho tornara-se desnecessária. Não precisava pedir ao chefe ao chefe da aldeia para reunir o seu povo e explicar a necessidade imperiosa da investigação. E estava livre da vergonha que sentia quando precisasse dizer: “eu sou médico”, tentando convencer a certos homens de que não havia perigo em ele estar a sós com elas, analisar-lhes as marcas das picadelas, extrair-lhes sangue, e fazer-lhes todas perguntas que a investigação exigia.

•••
A história prolongava-se demais. Já era altura de acabar. Por isso não tive o receio em dramatizar algo tão inocente como a pergunta que uma criança fez ao seu pai quando ao passar pela minha rua.

― É esta a vovó que é dona das formigas? ― disse uma menina, horrorizada com as minhas feições rudes.

Pouco depois soube que aquela era a neta do chefe da aldeia. MAS não podia recuar. Exigi que me limpassem o nome. Devia-se fazer uma cerimónia para comprovar a acusação feita, pois, até que se provasse o contrário, eu não era feiticeira.

•••

Finalmente chegou o dia em que tudo se esclarecerá. Diante de mim, ao alcance dos meus dedos, está a infusão, a que faz com que todos confessem seus pecados, sejam eles quais forem. As pessoas mais influentes da aldeia me rodeiam. Estão todos nervosos. Se eu for de facto culpada, morrerei em seguida, e eles se sentirão aliviados. Se eu for inocente, terão de me pedir desculpas formais e reaprenderem a me tratar como mereço. Feliz parece o curandeiro, mal consegue disfarçar um sorriso. Durante todo tempo lhe foi negada a opinião sobre o caso, por considerarem seu trabalho irracional, primitivo e pagão. Agora, comandando a cerimónia, vinga-se de cada um deles, dizendo com os olhos: “eu disse que a única solução era esta”.

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