sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A estranha mania de Satani

Os amigos do bando foram os primeiros a descobrir-lhe a mania. Viam o desmesurado esforço que fazia para que os assaltos envolvessem morte e outro fosse ele a matar. Decidiram expulsá-lo porque o grupo se tornava indiscreto e vulnerável. Mas foram todos capturados no assalto de despedida. Foram todos exemplarmente condenados mas Satani, por causa de sua discutível insanidade mental foi absolvido. Como a minúscula cidade não tinha manicómio, Satani ficou sob vigilância do inspector Muday, o atarefadíssimo chefe da polícia, e de sua mãe. Na verdade, era dona Joana que olhava por ele. “Meu filho não é um monstro”, Dizia ela para livrar o filho de iminentes linchamentos e para aumentar o indisfarçável ódio que os vizinhos e a cidade toda nutriam pelos dois. Mas não pôde protegê-lo para sempre, como prometera. Numa certa noite Satani teve mais uma de suas crises irremediáveis. A morte da vez era o enforcamento. E dona Joana, que era a única que o fazia companhia naquela casa gradeada, não ousou negar ou adiar o espectáculo que o filho queria ver e que não imaginara ter de o fazer. Satani deleitou-se com o dilema mortal em que a mãe estava: dona Joana tentava escolher entre livrar-se da corda grossa que, pressa ao lustre da sala, dilacerava-lhe o pescoço e procurar o chão com os pés curtos e ansiosos. Optou pela segunda alternativa. Mas não para procurar chão algum, para apressar a ida ao céu.

Inspector Muday, polícia uqe se prese, chegou tarde. Aliás, de outra forma não seria. Satani tinha a mania (mais uma) de desesperar-se, entrar em pânico, gritar histericamente quando visse o processo de morte concluído. Ele divertia-se com o processo, mas o abominava a morte em si. Por isso, às vezes, para evitar o deprimente after party dividia a autoria das mortes. Não precisava, por exemplo, contratar uma prostituta poder atingi-la as entranhas com uma faca de mesa, e passar a noite toda a assistir o ódio, o desespero, a incompreensão nos olhos da pobre. Podia simplesmente destruir a sinalização rodoviária para causar acidentes. E ser o transeunte solidário, disponível, que, por causa do choque, vai errando os números de emergência, acertando apenas depois de consumada a morte dos acidentados. Podia também invadir a sala dos cuidados intensivos do hospital e desligar todas máquinas que lá se encontrassem. Para poder atingir o apogeu da satisfação, verdadeiros orgasmos múltiplos ao ver a vida a apartar-se daqueles corpos (ou a morte a instalar-se neles?).

Mas o inspector Muday, ao ver o corpo pálido de dona Joana (ela fora sem ter tempo sequer para se vestir) e aquele olhar tranquilo (talvez ela pensara que fosse aquela a única solução), resolveu acabar com tudo. Aproveitou-se da tristeza e fragilidade de Satani decorrentes da morte de sua mãe e colocou-lhe no chá uma dessas drogas que dão sono.

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Satani acordou antes da hora. Recebia ainda os primeiros centímetros da faca de mesa quando abriu os olhos surpresos e confusos. Nada havia a fazer. Nem ao menos debater-se. Apressaria a entrada daquele objecto nada perfuro-cortante: os seus membros (superiores e inferiores) estavam presos a cada um dos cantos da sua cama. Impotente, olhou para o inspector com a mesma inquisição com que inúmeras vezes o haviam encarado. “Queres saber por quê?”, questionou Muday com um sorriso que desesperava Satani e o fazia lembrar dos seus momentos de deleite. “Seu menino mimado! Achas que és o único que tem essa estranha mania” disse, agora com um tom sério. “Sua mãe morreu. E não tenho mais ninguém com quem partilhar as consequências da tua irresponsabilidade. Bom… eu só lamento não poder partilhar este momento contigo. Tú sabes te divertir”, concluiu o inspector desferindo mais um golpe frio, lento no peito do jovem.

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