sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Cativa

Há muito que não vejo entusiasmo nos olhos do doutor. Em breve o pobre tomará coragem e finalmente me dirá que a minha doença não tem cura. Mas não é esta a doença que mais me dilacera. Fustiga-me mais a possiblidade de morrer sem provar a minha sanidade mental. Não culpo a ninguem. Os homens e mulheres desta cidadezinha me teriam tratado melhor se eu não tivesse aparecido para eles pela primeira vez completamente nua, em pleno meio dia, em plena rua Principal, em plena quarta-feira, o dia em que a via perdia as suas funções originais e se tranformava num gigantesco mercado informal. “Uma mulher nua”, disse a primeira pessoa que me viu. As exclamações e suspiros que se seguiram fizeram com que logo todos me pusessem os olhos em cima. As mulheres, talvez por solidariedade feminina, foram as primeiras a refazer-se do impacto. Enquanto umas, com suas mãos opacas, procuravam tapar os olhos das crinças, outras apressavam-me em cobrir-me. Os homens continuaram paralisados.

Depois de muita discussão sobre a minha procedência e sobre o que eu ali fazia, decidiram levar-me a polícia. Desconheço o trajecto. Naquela viatura aberta em que me levavam, eu devia abaixar os olhos para fugir dos milhares de olhares – uns atónicos, outros recriminatórios.

Ao cabo de minutos tentando certificar-se de que eu era real, que não era fruto da imaginação fértil daquele povo, o comandante começou a bombardear-me com perguntas. Eu disse toda verdade. Mas no fim o homem disse, aborrecido: “Levem-na ao macómio. Essa mulher não diz coisa com coisa. A única informação útil que deu é seu nome, Madalena. O resto é... ela tem o descaramento de dizer que acaba de fugir de um cativeiro onde passou toda juventude”.

Pelas razões já referidas, também desconheço o trajecto que me levou ao manicómio. Abri os olhos quando o caro diminuiu a velocidade.

A nova casa lembrava-me o cativeiro, apesar de ser diferente em alguns detalhes que logo identificou. Ao muro alto faltava a electrificação; o jardim era relativamente menor e não tinha seguranças e cachorros por todos lados; os corredores também eram brancos, apenas pareciam não terminar; as janelas dos quartos podiam se abrir, ainda que por fora; e todas pessoas do lugar, sem exceções, andavam vestidas.

Saia do quarto apenas uma vez por semana, quando fosse ao gabinete do doutor Mascarenhas, um careca, barbudo e barrigudo, o director do manicómio. O doutor parecia ouvir-me só por ouvir, sonecava em todas sessões. Na sexta semana, decidi calar-me. Preferiria contar minha história a Maria, a mulher da limpeza, que, apesar de rir-se tão ridiculamente como os infelizes que pululavam o pátio, conservava a atenção que o doutor Mascarenhas tinha apenas no primeiro minuto das sessões. Maria não perdia um detalhe que fosse, principalmente o capítulo que apelidei de “o último dia da minha vida”. Um dia em que, tal como nos outros, dirigi-me a paragem de autocarros as 7 horas da manhã; onde, depois dos minutos aborrecedores de espera, finalmente apanhei um autocarro. Mas depois de andar alguns metros — antes mesmo de me aborrecer com o trânsito — sentii, de repente, ter entrando em transe, como se a alma se me tivesse descolado do corpo. No período indeterminável que se seguiu, ouvia apenas choros lamuriantes, que eram logo interrompidos por vozes impacientes. Quando, ainda que parcialmente, recobrei os sentidos, estava estendida numa enorme sala de paredes brancas. Identifiquei algumas pessoas que vira autocarro. Havia apenas uma porta no lugar, muito fina, como se não tivesse sido feita para as suas funções normais. Dela saiu um homem baixo e magro, mas cuja barba, irrepreensivelmente cortada, conferia-lhe alguma elegância. Depois de breves segundo percorrendo a sala com os olhos, o homem esticou o dedo apontando-me. No entanto, e antes que eu me desesperasse, ouvi uma voz que vinha de todos lados da sala:

— Não, essa não. Essa vai ser minha mulher — imperou a voz.

Eu contava tudo a Maria, menos a parte que falava dos “dias de amor”. Os dias em que ela, como todas raparigas do cativeiro, recebia homens no meu quarto. Saltava tais capítulos, e preferia falar da minha surpreendente gravidez, do filho que tivera, e do facto de só tê-lo visto mediante alguns “dias de amor” extraordinários. Aliás, eu consegui evadir-me porque, por um descuido qualquer, meu filho desaparecera. E eu, a mais interessada, integrei o grupo das buscas nas cercanias do cativeiro.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A estranha mania de Satani

Os amigos do bando foram os primeiros a descobrir-lhe a mania. Viam o desmesurado esforço que fazia para que os assaltos envolvessem morte e outro fosse ele a matar. Decidiram expulsá-lo porque o grupo se tornava indiscreto e vulnerável. Mas foram todos capturados no assalto de despedida. Foram todos exemplarmente condenados mas Satani, por causa de sua discutível insanidade mental foi absolvido. Como a minúscula cidade não tinha manicómio, Satani ficou sob vigilância do inspector Muday, o atarefadíssimo chefe da polícia, e de sua mãe. Na verdade, era dona Joana que olhava por ele. “Meu filho não é um monstro”, Dizia ela para livrar o filho de iminentes linchamentos e para aumentar o indisfarçável ódio que os vizinhos e a cidade toda nutriam pelos dois. Mas não pôde protegê-lo para sempre, como prometera. Numa certa noite Satani teve mais uma de suas crises irremediáveis. A morte da vez era o enforcamento. E dona Joana, que era a única que o fazia companhia naquela casa gradeada, não ousou negar ou adiar o espectáculo que o filho queria ver e que não imaginara ter de o fazer. Satani deleitou-se com o dilema mortal em que a mãe estava: dona Joana tentava escolher entre livrar-se da corda grossa que, pressa ao lustre da sala, dilacerava-lhe o pescoço e procurar o chão com os pés curtos e ansiosos. Optou pela segunda alternativa. Mas não para procurar chão algum, para apressar a ida ao céu.

Inspector Muday, polícia uqe se prese, chegou tarde. Aliás, de outra forma não seria. Satani tinha a mania (mais uma) de desesperar-se, entrar em pânico, gritar histericamente quando visse o processo de morte concluído. Ele divertia-se com o processo, mas o abominava a morte em si. Por isso, às vezes, para evitar o deprimente after party dividia a autoria das mortes. Não precisava, por exemplo, contratar uma prostituta poder atingi-la as entranhas com uma faca de mesa, e passar a noite toda a assistir o ódio, o desespero, a incompreensão nos olhos da pobre. Podia simplesmente destruir a sinalização rodoviária para causar acidentes. E ser o transeunte solidário, disponível, que, por causa do choque, vai errando os números de emergência, acertando apenas depois de consumada a morte dos acidentados. Podia também invadir a sala dos cuidados intensivos do hospital e desligar todas máquinas que lá se encontrassem. Para poder atingir o apogeu da satisfação, verdadeiros orgasmos múltiplos ao ver a vida a apartar-se daqueles corpos (ou a morte a instalar-se neles?).

Mas o inspector Muday, ao ver o corpo pálido de dona Joana (ela fora sem ter tempo sequer para se vestir) e aquele olhar tranquilo (talvez ela pensara que fosse aquela a única solução), resolveu acabar com tudo. Aproveitou-se da tristeza e fragilidade de Satani decorrentes da morte de sua mãe e colocou-lhe no chá uma dessas drogas que dão sono.

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Satani acordou antes da hora. Recebia ainda os primeiros centímetros da faca de mesa quando abriu os olhos surpresos e confusos. Nada havia a fazer. Nem ao menos debater-se. Apressaria a entrada daquele objecto nada perfuro-cortante: os seus membros (superiores e inferiores) estavam presos a cada um dos cantos da sua cama. Impotente, olhou para o inspector com a mesma inquisição com que inúmeras vezes o haviam encarado. “Queres saber por quê?”, questionou Muday com um sorriso que desesperava Satani e o fazia lembrar dos seus momentos de deleite. “Seu menino mimado! Achas que és o único que tem essa estranha mania” disse, agora com um tom sério. “Sua mãe morreu. E não tenho mais ninguém com quem partilhar as consequências da tua irresponsabilidade. Bom… eu só lamento não poder partilhar este momento contigo. Tú sabes te divertir”, concluiu o inspector desferindo mais um golpe frio, lento no peito do jovem.