sexta-feira, 30 de julho de 2010

Dia de azar

Depois de fazer o serviço, meti-me na rua da Concórdia. Estava tão contente que não tomei um dos cuidados que, na minha profissão, é elementar. Só no final do troço (na parte mais ou menos iluminada) dei-me conta de que estava horrivelmente manchada de sangue a camisa branca que imprudentemente trajava. Tirei-a e amarrei-a no braço direito fingindo um ferimento. As poucas pessoas que via ofereciam ajuda, umas aconselhando- se a procurar cuidados médicos, e outras pedindo carregar o saco plástico preto que eu levava na mão esquerda. Livrei-me deles facilmente. Afinal aquela rua dava ao hospital. Chegado ao hospital, e conforme o combinado, joguei o saco no caixote de lixo, fui ao telefone público e rematei, sem preâmbulos:

— Já fiz o serviço. Livrei-me do corpo. A gente se encontra no local combinado. Não demora — disse eu num tom triunfante.

No entanto, passaram 15 minutos sem que o meu parceiro chegasse, ou que pelo menos me desse um sinal. Impaciente, fui novamente ao telefone para pressioná-lo. Mas olhando para o pedaço de papel, vi que ligara para um número errado. Inúmeras vezes eu repreendera o meu parceiro por causa da sua horrível e ilegível letra. O seu 4 era tão circular que era muito difícil não confundi-lo com 9. O desespero apossou -se de mim. Passei 2 longos e penosos minutos tentando decidir se desaparecia do lugar ou se ligava para meu parceiro para explicar o sucedido. Quando, finalmente, optei pela segunda alternativa, meia dúzia de mendigos tomara conta do caixote de lixo. Eram quase todos idosos e visivelmente fracos, mas não me atrevi a enxotá-los, seria inútil. Fugi.

Poucas horas depois, a polícia me pegava. Eu não tomara outro cuidado básico: ver a posição das câmaras de vigilância do hospital.

Quando, depois de desgastantes dias de julgamento, estava certo que eu seria condenado, apareceu a pessoa para quem eu acidentalmente ligara naquela madrugada de sábado. Tratava-se de um homem muito alto e muito gordo, mas que denotava uma grande fragilidade interior, a julgar pelo indisfarsável medo que o dominava quando foi arrastado para a sala de audiências. Saiu mais perturbado ainda, talvez por ter estado perto do mais famoso assassino e traficante de órgãos humanos; o carniceiro, segundo certa midia. Só espero não ter passado a ser um dos monstros de seus pesadelos.

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