segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O pedinte


Completamente entregue aos meus pensamentos, caminhava sobre a rua da Independência, em direcção à paragem de autocarros, quando, de súbito, um vulto obstruiu-me o caminho. Antes de voltar a mim, preparei-me: se fosse um vendedor, o dispensaria seu latim e os descontos, eu estava sem dinheiro; se fosse um activista de direitos humanos, um ambientalista ou um religioso, diria que estava frontalmente contra o que defendia e aceitaria um panfleto apenas por polidez.

 

Quando, sentindo-me armado, voltei a mim, vi um homenzinho magríssimo, circunscrito a um metro e sessenta.

 

— Desculpa-me por fazer parar um pessoa com o senhor — começou, timidamente, sem o poder de persuasão dos meus habituais interlocutores. Aliás, mal conseguia olhar-me nos olhos. — Eu sou da cidade da Matola. Na semana passada soube que era pai. Eu me envolvi com a moça no natal antepassado. Apesar de estar desempregado, os meus pais exigem que eu cuide da menina (na verdade, eles estão muito felizes por serem avós, só querem que eu me esforce). Ontem um amigo de um tio meu ligou-me, prometendo-me um trabalho. Hoje eu saí de casa muito cedo mas até agora não consegui localizar o homem. E eu não tenho dinheiro para regressar a Matola nem para pagar o dinheiro que eu pedi emprestado para poder vir até aqui. Mano, podias me fazer ver dez contos?

 

Esforcei-me por ouvi-lo pacientemente, embora ligeiramente incomodado com os trapos que ele trajava.

 

— Infelizmente não posso ajudar-te, mano. Também estou mal — disse eu.

Não quis ver a reacção do que eu acabara de dizer. Mas um transeunte empurrou-me, e tive de precaver-me de uma queda. Surpreendentemente, vi uma sincera compreensão nos olhos do homenzinho.

 

Sentado no autocarro, num acento com janela, tornei a ver o homenzinho, abordando outra pessoa. “Ele está mesmo a precisar de dinheiro”, pensei eu, levemente atacado por remorsos. Tive vontade de descer para ajudá-lo, mas o autocarro arrancou.

 

 

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fim da jornada

A reunião terminou três horas depois do previsto, à meia noite. Corri imediatamente para a paragem de autocarros. Conforme esperava, estava apinhada de gente, barulhenta... A confusão chegava ao auge sempre que um autocarro parasse. Tentavam todos entrar ao mesmo tempo, impedindo por vezes que os que ali desciam pudessem fazê-lo. Determinado a não bater a porta dalgum conhecido ou a esperar o amanhecer fazendo dívidas nalgum bar, resolvi entrar na luta. Tive sorte. Apesar da minha baixa estatura, consegui entrar na primeira tentativa. Mas fiquei entre os que, de pé, ocupavam o corredor. Faltava ar. De vez em quando, pisando uns e empurrando outros, tentava em vão colocar a cara em direcção a janela mais próxima. Não valia a pena queixar-me ao cobrador; conseguiria apenas enfurecê-lo, o que o levaria a encontrar meios de fazer entrar mais pessoas. Mais inútil seria apelar ao motorista: à este concerniam apenas os assuntos do volante.

Estavamos perto da minha paragem quando uma voz masculina, quebrando alguns minutos de silêncio, disse, aterrada:

— Esta mulher está morta.

A tal mulher perdera os sentidos um pouco antes. O pobre homem percebeu-o apenas quando virou-se para ver a pessoas que insistia em pendurar-se nas suas costas, apesar das suas ligeiras cotoveladas de protexto.
Apertamo-nos ainda mais, perminitindo que a mulher pudesse ficar deitada no corredor.

— Eu não disse que ainda havia espaço — disse o cobrador, involuntariamente, num tom triunfante, mas arrependeu-se em seguida diante da censura nas dezenas de olhares que logo lhe cobriram.

— Está desmaiada apenas — disse alguém, após um breve exame.

Começaram as explicações do incidente. Uns defendiam ferrenhamente que a mulher desmaira por causa da mistura desastrora dos cheiros. Com a mesma convicção outros defendiam uma outra causa qualquer. A razão podia estar com uns assim como com outros. Mais urgente era levar a mulher ao hospital. Apareceram voluntários. Eu me afastei o quanto pude da enferma. Estava mais interessado com o que me aconteceria depois de chegar ao meu destino. Entre a paragem e a minha casa, a rua era estreita, cheia de buracos e escura. Se aquele fosse um dia de azar, podiam-me aparecer bandidos do nada. Estava particularmente preocupado porque, depois de pagar o bilhete, não me restou um único centavo.
Adérito Mazive

domingo, 31 de outubro de 2010

Um aspirante à escritor

Eu gostava do meu trabalho, a literatura é que me queria só para si. Indiferente aos elogios ou broncas do meu chefe, passava quase todo dia na net, lendo contos de todos os géneros. Findo o expediente, voava para casa, sentava-me à mesa, e, ávido,começava a escrever. A inspiração sempre me disiludia. Ao cabo de seis horas procurando palavras, eu nunca tinha mais do que duas páginas. Depois punha-me a ler o que acabara de escrever, uma, duas, três, e tantas vezes, procurando descobrir-lhe genialidade. Se, no final, o textículo não me agradasse, e me fizesse pensar que não era suficientemente talentoso para um dia viver da escrita, que devia era me dedicar seriamente ao meu trabalho, eu tomava qualquer coisa para dormir. Era um método não saudável, covarde, eu sabia. Tentar dormir ao som duma FM seria boa ideia se eles não passassem a vida dizendo a hora e o dia, fazendo-me lembrar de que, fosse em quantidade como em qualidade, não estava em condições de participar de nenhum dos concursos que decorriam.

No dia seguinte, às seis da manhã, sem piedade, o despertador interrompia-me o sono. Mas eu permanecia na cama, de olhos abertos. Ficava esperando de inspiração para a escrita e para a vida. Inúteis que tinham sido as minhas leituras de clássicos, de uma dúzia de livros de auto-ajuda, e de algumas biografias de homens e mulheres notáveis, só mesmo o acaso me podia salvar.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A praga

Chamaram de pacifismo o que os proibia de chegar às vias de facto. Eu chamei-lhe de cobardia. E porque eles não desperdiçariam o primeiro instante de coragem que o acaso lhes proporcionasse, resolvi ceder aos apelos do meu frágil corpo e limitar o meu dia-a-dia ao meu quintal. Posição cómoda, comformista, dirão. Mas nada mais podia fazer sendo eu quem era: uma mulher quase octogenária, há muito viúva, sem nenhum dos filhos vivos. Era a mulheres como eu que podiam acusar de prover aquela estranha praga de formigas que, numa clara usurpação das habituais tarefas dos mosquitos, não deixavam que nenhum ser humano dormisse enquanto durasse o Inverno. Não deixei, porém, de ver o ódio dessa gente. Quase todos dias surpreendia alguém bisbilhotando meu quintal, procurando provas irrefutáveis do meu crime, como diziam. Mais corajosos eram certos rapazitos cujo divertimento era gritar-me impropérios e pôr-se em fuga. No começo eu tentava segui-los. Desisti quando sabiamente descobri que a minha saúde não permitiria alcançar o mais preguiçoso molusco.

Por pura diversão, para livrar-se do tédio e solidão, resolvi preparar a minha morte. Mil ideias me surgiam. Mas a mais delirante foi certamente a que consistia em seleccionar os melhores momentos da minha vida, com o objectivo de passar as imagens na minha mente no momento da verdade, como uma espécie de homenagem a mim mesma.

No entanto, naquela manhã fria e nublada em que um burburinho me despertou, senti que o preparo de nada me servira. A princípio pensei que fosse mais uma marcha que esporadicamente organizavam para reivindicar o direito ao sono. As palavras de ordem eram gritadas com particular vigor, e os manifestantes não estavam na rua, haviam invadido o meu quintal. Em vez da resignação que esperava, senti esperança. E sem que deliberasse, vi-me espreitando pelo buraco da fechadura, na esperança de que uma daquelas almas fosse piedosa.

Apenas o pastor, pelas razões óbvias, havia tentado dissuadi-los a cometer um acto daqueles, condenável tanto aos olhos dos homens como Dele. Estava recolhido a sombra de uma mafurreira situada algures. Desolado. Certamente, as ovelhas mais desgarradas haviam clarificado que não permitiriam que ninguém, fosse quem fosse, lhes impedisse de alcançar seu objectivo.

Não havia dúvidas, o meu dia chegara. Encolhi-me num canto, com as mãos na cabeça, a espera do golpe que me levaria, como se naquela posição o tal golpe pudesse ser menos doloroso e mais eficaz.

Mas o golpe não chegava. Volvidos alguns minutos, a posição tornou-se desconfortável, quase todas as minhas articulações me doíam. Voltando a dar ouvidos ao exterior, me apercebi que o barulho diminuíra, os insultos já não eram tão graves. Teriam esgotado seu vasto reportório de impropérios? Teriam novamente temido os baldes de sangue que as formigas sugavam? Teria, o chefe da aldeia, regressado de onde se bandeara há alguns dias? Sim. Pois só ele podia conter a agitação da populaça. Aliás, eu continuava viva porque ele não permitira. Ele usava o argumento de que ninguém conseguira provar que eu era a dona das formigas.

Nenhuma resposta certa. Conforme vim a saber, o que sucedeu foi que alguém, sem pretensões de parar a manifestação, teria se questionado: “e se ela não for culpada!” Assim se foi a coragem dos aldeões.

Ao meio dia, não havia sinal da balbúrdia.

Chegados àquele ponto, o futuro tornara-se demasiado imprevisível. Nada me restava fazer senão recorrer a casa do meu protector. Esperei o anoitecer e me arrastei até lá.

Era público que a mulher do chefe da aldeia não morria de amores por mim. Só sob coação ela me daria abrigo. Por desconfiar do seu reconhecidíssimo bom coração, resolvi agir à bruta. Bati a porta com toda violência que me era possível, e com as forças que me sobraram gritei:

— Comadre, não tenho onde ir!

Cerca de um minuto depois, a porta abriu-se, e surgiu uma lamparina. Para poder me ver, a comadre adiantou o rosto, colocando-se ao alcance da luz (aquele rosto era tão murcho quanto o meu, mas naquele momento não percebi porque era a minha imagem que todas crianças eram ensinadas a repugnar).

— Meu marido não está!

Ela ia dizer esta frase e fechar a porta. Eu a obriguei a recuar antes mesmo que a concluísse.

Espantou-me a passividade da comadre. Noutras ocasiões teríamos começado uma discussão que duraria o resto da noite. Caí em mim quando a ouvi trancar a porta imediatamente a seguir a sala e depois a do seu quarto. Eu devia dormir na sofá. Móvel que, como ambas sabíamos, era uma autêntica colónias de formigas.

Era absolutamente inútil tentar dormir, resolvi dar uma volta pela aldeia para fazer tempo. Matar saudades, apesar da escuridão esconder sua beleza. Mal passei pelas primeiras casas, comecei a ouvir crianças chorando, adultos sacudindo roupa de cama e me chamando nomes. No entanto, havia quem dormisse. Sim. Eram os que tinham camas, e podiam assim beneficiar-se da recente técnica de evitar formigas. Tendo colocado recipientes cheios de águas nos quatro pés da cama, as formigas que ousassem alcançá-los morriam afogadas naqueles pequenos mares.

Num lugar que jamais poderei precisar, fiquei esgotada. Noutras ocasiões bastava fingir que era a hiena ou a coruja que diziam que eu me transformava em. Agora não conseguia livrar-me daquela vontade de pousar a cabeça e fechar os olhos. Estava em plena queda quando uma mão me segurou. Era o chefe da aldeia. Senti pelo cheiro.

Na manhã seguinte a balbúrdia estava transferida para a fronte da casa do chefe da aldeia. Os populares souberam que o homem se ausentara para tratar de assuntos pessoais, e não para procurar a solução para a praga junto das autoridades, conforme vinha fazendo há dez anos, sem falhar.

― Calma, calma, meus irmãos! ― começou o chefe da aldeia, sobrepondo-se as centenas de vozes, e confirmando sua autoridade sobre os aldeões. ― Eu não me esqueci das minhas responsabilidades. Tanto é (o velho levantou ainda mais a voz par ofuscar alguns murmúrios) que vou à cidade agora mesmo.

As dúvidas acabaram quando a comadre saiu pela porta com uma maleta na mão. Todos sabíamos que continha. Três mudas de roupa: a primeira para o dia em que andaria de departamento em departamento a procura de alguém que lhe marcasse uma audiência com o administrador. A segunda para o próprio dia da audiência, que, de acordo com o administrador, afinal não precisava ser marcada. A terceira muda era para o regresso, o dia em que meia aldeia lhe esperaria ansiosamente no cais a solução do problema.

Três dias depois, as dez da manhã, estávamos todos no cais, esperando o homem, torcendo para que fosse aquela a vez da solução definitiva. Antes que nos irritássemos com a espera, um barco nos surgiu no horizonte. Exclamações de entusiasmo. O barco aproximou-se e pudemos ver os rostos dos viajantes. Silêncio. Estavam todos desanimados como sempre. Apenas o doutor W parecia indiferente aos fracassos anteriores. Desfez o sorriso apenas quando alguém queixou-se da demora que a solução levava. “Como todas coisas importantes da vida, o mais importante é o processo, o caminho, e não propriamente a chegada”, disse ele naquele tom professoral. Conhecendo-o como o conhecia, posso garantir que falava a verdade, que não investigava apenas por investigar, por investigação, por obrigação., como alguns diziam. Mesmo porque a parte mais dura e chata do trabalho tornara-se desnecessária. Não precisava pedir ao chefe ao chefe da aldeia para reunir o seu povo e explicar a necessidade imperiosa da investigação. E estava livre da vergonha que sentia quando precisasse dizer: “eu sou médico”, tentando convencer a certos homens de que não havia perigo em ele estar a sós com elas, analisar-lhes as marcas das picadelas, extrair-lhes sangue, e fazer-lhes todas perguntas que a investigação exigia.

•••
A história prolongava-se demais. Já era altura de acabar. Por isso não tive o receio em dramatizar algo tão inocente como a pergunta que uma criança fez ao seu pai quando ao passar pela minha rua.

― É esta a vovó que é dona das formigas? ― disse uma menina, horrorizada com as minhas feições rudes.

Pouco depois soube que aquela era a neta do chefe da aldeia. MAS não podia recuar. Exigi que me limpassem o nome. Devia-se fazer uma cerimónia para comprovar a acusação feita, pois, até que se provasse o contrário, eu não era feiticeira.

•••

Finalmente chegou o dia em que tudo se esclarecerá. Diante de mim, ao alcance dos meus dedos, está a infusão, a que faz com que todos confessem seus pecados, sejam eles quais forem. As pessoas mais influentes da aldeia me rodeiam. Estão todos nervosos. Se eu for de facto culpada, morrerei em seguida, e eles se sentirão aliviados. Se eu for inocente, terão de me pedir desculpas formais e reaprenderem a me tratar como mereço. Feliz parece o curandeiro, mal consegue disfarçar um sorriso. Durante todo tempo lhe foi negada a opinião sobre o caso, por considerarem seu trabalho irracional, primitivo e pagão. Agora, comandando a cerimónia, vinga-se de cada um deles, dizendo com os olhos: “eu disse que a única solução era esta”.

domingo, 19 de setembro de 2010

SÓ (Análise crítica)


Um conto de Adérito Mazive

(Análise crítica)

Maria José Limeira

Esse conto "Só", de Adérito Mazive, é de uma exuberância sem par, esbanjando criatividade e imaginação por todos os poros, ainda que salpicado de erros de digitação e de enganos ortográficos. (Mas... quem liga? Quem liga?)
Bem, como ia dizendo, é um texto denso, embora explícito, narrado na primeira pessoa (não há de ser nada, em nada prejudica...). A ação é mais interior do que externa. O discurso é de oprimido em crise existencial.
O tema da solidão atinge os últimos extremos, quando o personagem liga-se ao seu animal de estimação, cujo final trágico provoca o vácuo que o início do texto esboçara... Em nenhum momento, o autor perde o fio da meada na arenga do eu (personagem) contra o outro (realidade circundante).
Além do texto em si, o nome do autor chamou-me a atenção (olá, prazer em conhecê-lo!), pois nada sabia sobre o mesmo e precisei entrar no blog dele para conhecê-lo melhor, desvendando a origem de sua escrita que me parecia vir do Português de Portugal, no que estava redondamente enganada, pois vem de Moçambique.
(Ah, Moçambique, como eu adoro vossa literatura! Como são lindos e criativos vossos textos!)
Mas, vamos ao que interessa.
Que extremos são esses que levam as pessoas aos desvarios da solidão?
A simples timidez?
A des-esperança?
O não-compartilhar da geléia-geral?
O saldo-negativo da conta bancária?
A falta do que-comer?
Serão os laços-partidos em relação à humanidade passíveis de re-construção?
São essas as questões que o autor levanta em seu texto tão inquietante quanto patético, lançando ao leitor um desfecho surpreendente.
E haja prosa bonita!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Expulso da pensão, nada me restou senão me mudar finalmente para o subúrbio. Uma velha senhora me cedeu o cubículo do fundo do seu quintal em troca de uma quantia altíssima. Mas, tirando as baratas e mosquitos que resistiam à qualquer insecticida, devo dizer que vivia razoavelmente bem. Estranhamente, o crime era uma raridade por aqueles lados. É verdade que fui assaltado mais de uma vez, mas o objectivo dos meliantes nunca era me tirar o que quer que fosse, pois qualquer um que me pusesse os olhos em cima via que a minha situação financeira era alarmante. Eles queriam era me dar uma licção. Pensavam que, volvidos tantos meses no bairro, eu não fizera amigos por uma espécie de complexo de superioridade. Eu nunca ignorava um oi ou olá de quem quer que fosse.Eu era apenas tímido. O problema era a minha timidez incurável (desde a adolescência que recebia críticas). Devo dizer, porém, que eu não tinha nada a ver com aquela gente. Eles se interessavam por coisas como álcool, drogas, moda e outras futilidades. E a mim interessava-me o estado da minha mísera conta bancária e encontrar alguém que me emprestasse um livro.

Feitas as contas, eu me relacionava apenas com a velha senhora. Ela tinha-me certa simpatia. Via-o na tolerância que tinha com os meus atrasos sistemáticos no pagamento das mensalidades e na preocupação que tinha em me arranjar água nas semanas em que não jorrava um gota das torneiras. Mas a nossa relação também não era normal: eu falava só português e ela só changana, por isso limitávamo-nos aos bom dias e boas tardes.

Deixei de ser tão só quando um gatinho apareceu no quintal. Na verdade eu o vira antes. Fora numa manhã de frio e chuviscos, na rua que antecedia a minha. O bichinho estava encolhido num canto, gemendo. A imagem me comoveu, mas não o prestei os cuidados que a mãe desnaturada o negara. Foi por causa da cor (os meus pesadelos mais terríveis envolviam gatos pretos, e aquele era completamente preto). “Ainda bem que ele é um animal, e não Homem”, pensei eu ao imaginar onde meteria minha cara se ele me pedisse contas por o não ter ajudado num momento tão crítico. Para compensá-lo, na verdade para perdoar-me a mim mesmo, alimentei-o e deixei que ele entrasse no cubículo.

Uma semana depois, éramos grandes amigos e dependentes um do outro: ele me mantinha suficiente entretido para não falar e rir-me sozinho, como me habituara, e eu o alimentava com o melhor que tivesse. Mal me visse com um saco plástico, o bichinho corria em minha direcção. (O saco plástico era sempre preto. Eu não queria que os vizinhos soubessem o que eu comprava. Ridículo. Pois na mercearia só se vendia peixe e frango).

Eu já pensava em levá-lo comigo no meu hipotético regresso a minha cidade quando, numa certa manhã, a velha senhora disse:

― Se o gatinho te incomodar, mande-o embora. Bata-o se for necessário. Eu o comprei para caçar ratos, mas nem para isso ele serve.

A verdade era que o gatinho cumprira sua missão: não havia sinal de ratos. Eu era incapaz de agredi-lo, apenas emiti um grunhido para que ela soubesse que eu a ouvira.

Mas nem sempre eu podia estar em casa, fosse quando meus amigos se lembrassem de mim e me convidassem para festas ou quando o marido da dona Antónia viajasse. Numa certa manhã, quando eu voltava dum desses lugares, vi a velha senhora fechando um buraco bem na entrada . Sem que eu a perguntasse ela rematou, ofegante:

― É o gatinho. Mais uma vez chorou durante a noite toda. Isso é sinal de que vai acontecer algo muito grave com pessoas das minhas relações.

A fé da senhora parecia tão firme que achei imprudente dizer: “Chorou por causa de fome. Ele não come há três dias.”

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Cativa

Há muito que não vejo entusiasmo nos olhos do doutor. Em breve o pobre tomará coragem e finalmente me dirá que a minha doença não tem cura. Mas não é esta a doença que mais me dilacera. Fustiga-me mais a possiblidade de morrer sem provar a minha sanidade mental. Não culpo a ninguem. Os homens e mulheres desta cidadezinha me teriam tratado melhor se eu não tivesse aparecido para eles pela primeira vez completamente nua, em pleno meio dia, em plena rua Principal, em plena quarta-feira, o dia em que a via perdia as suas funções originais e se tranformava num gigantesco mercado informal. “Uma mulher nua”, disse a primeira pessoa que me viu. As exclamações e suspiros que se seguiram fizeram com que logo todos me pusessem os olhos em cima. As mulheres, talvez por solidariedade feminina, foram as primeiras a refazer-se do impacto. Enquanto umas, com suas mãos opacas, procuravam tapar os olhos das crinças, outras apressavam-me em cobrir-me. Os homens continuaram paralisados.

Depois de muita discussão sobre a minha procedência e sobre o que eu ali fazia, decidiram levar-me a polícia. Desconheço o trajecto. Naquela viatura aberta em que me levavam, eu devia abaixar os olhos para fugir dos milhares de olhares – uns atónicos, outros recriminatórios.

Ao cabo de minutos tentando certificar-se de que eu era real, que não era fruto da imaginação fértil daquele povo, o comandante começou a bombardear-me com perguntas. Eu disse toda verdade. Mas no fim o homem disse, aborrecido: “Levem-na ao macómio. Essa mulher não diz coisa com coisa. A única informação útil que deu é seu nome, Madalena. O resto é... ela tem o descaramento de dizer que acaba de fugir de um cativeiro onde passou toda juventude”.

Pelas razões já referidas, também desconheço o trajecto que me levou ao manicómio. Abri os olhos quando o caro diminuiu a velocidade.

A nova casa lembrava-me o cativeiro, apesar de ser diferente em alguns detalhes que logo identificou. Ao muro alto faltava a electrificação; o jardim era relativamente menor e não tinha seguranças e cachorros por todos lados; os corredores também eram brancos, apenas pareciam não terminar; as janelas dos quartos podiam se abrir, ainda que por fora; e todas pessoas do lugar, sem exceções, andavam vestidas.

Saia do quarto apenas uma vez por semana, quando fosse ao gabinete do doutor Mascarenhas, um careca, barbudo e barrigudo, o director do manicómio. O doutor parecia ouvir-me só por ouvir, sonecava em todas sessões. Na sexta semana, decidi calar-me. Preferiria contar minha história a Maria, a mulher da limpeza, que, apesar de rir-se tão ridiculamente como os infelizes que pululavam o pátio, conservava a atenção que o doutor Mascarenhas tinha apenas no primeiro minuto das sessões. Maria não perdia um detalhe que fosse, principalmente o capítulo que apelidei de “o último dia da minha vida”. Um dia em que, tal como nos outros, dirigi-me a paragem de autocarros as 7 horas da manhã; onde, depois dos minutos aborrecedores de espera, finalmente apanhei um autocarro. Mas depois de andar alguns metros — antes mesmo de me aborrecer com o trânsito — sentii, de repente, ter entrando em transe, como se a alma se me tivesse descolado do corpo. No período indeterminável que se seguiu, ouvia apenas choros lamuriantes, que eram logo interrompidos por vozes impacientes. Quando, ainda que parcialmente, recobrei os sentidos, estava estendida numa enorme sala de paredes brancas. Identifiquei algumas pessoas que vira autocarro. Havia apenas uma porta no lugar, muito fina, como se não tivesse sido feita para as suas funções normais. Dela saiu um homem baixo e magro, mas cuja barba, irrepreensivelmente cortada, conferia-lhe alguma elegância. Depois de breves segundo percorrendo a sala com os olhos, o homem esticou o dedo apontando-me. No entanto, e antes que eu me desesperasse, ouvi uma voz que vinha de todos lados da sala:

— Não, essa não. Essa vai ser minha mulher — imperou a voz.

Eu contava tudo a Maria, menos a parte que falava dos “dias de amor”. Os dias em que ela, como todas raparigas do cativeiro, recebia homens no meu quarto. Saltava tais capítulos, e preferia falar da minha surpreendente gravidez, do filho que tivera, e do facto de só tê-lo visto mediante alguns “dias de amor” extraordinários. Aliás, eu consegui evadir-me porque, por um descuido qualquer, meu filho desaparecera. E eu, a mais interessada, integrei o grupo das buscas nas cercanias do cativeiro.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A estranha mania de Satani

Os amigos do bando foram os primeiros a descobrir-lhe a mania. Viam o desmesurado esforço que fazia para que os assaltos envolvessem morte e outro fosse ele a matar. Decidiram expulsá-lo porque o grupo se tornava indiscreto e vulnerável. Mas foram todos capturados no assalto de despedida. Foram todos exemplarmente condenados mas Satani, por causa de sua discutível insanidade mental foi absolvido. Como a minúscula cidade não tinha manicómio, Satani ficou sob vigilância do inspector Muday, o atarefadíssimo chefe da polícia, e de sua mãe. Na verdade, era dona Joana que olhava por ele. “Meu filho não é um monstro”, Dizia ela para livrar o filho de iminentes linchamentos e para aumentar o indisfarçável ódio que os vizinhos e a cidade toda nutriam pelos dois. Mas não pôde protegê-lo para sempre, como prometera. Numa certa noite Satani teve mais uma de suas crises irremediáveis. A morte da vez era o enforcamento. E dona Joana, que era a única que o fazia companhia naquela casa gradeada, não ousou negar ou adiar o espectáculo que o filho queria ver e que não imaginara ter de o fazer. Satani deleitou-se com o dilema mortal em que a mãe estava: dona Joana tentava escolher entre livrar-se da corda grossa que, pressa ao lustre da sala, dilacerava-lhe o pescoço e procurar o chão com os pés curtos e ansiosos. Optou pela segunda alternativa. Mas não para procurar chão algum, para apressar a ida ao céu.

Inspector Muday, polícia uqe se prese, chegou tarde. Aliás, de outra forma não seria. Satani tinha a mania (mais uma) de desesperar-se, entrar em pânico, gritar histericamente quando visse o processo de morte concluído. Ele divertia-se com o processo, mas o abominava a morte em si. Por isso, às vezes, para evitar o deprimente after party dividia a autoria das mortes. Não precisava, por exemplo, contratar uma prostituta poder atingi-la as entranhas com uma faca de mesa, e passar a noite toda a assistir o ódio, o desespero, a incompreensão nos olhos da pobre. Podia simplesmente destruir a sinalização rodoviária para causar acidentes. E ser o transeunte solidário, disponível, que, por causa do choque, vai errando os números de emergência, acertando apenas depois de consumada a morte dos acidentados. Podia também invadir a sala dos cuidados intensivos do hospital e desligar todas máquinas que lá se encontrassem. Para poder atingir o apogeu da satisfação, verdadeiros orgasmos múltiplos ao ver a vida a apartar-se daqueles corpos (ou a morte a instalar-se neles?).

Mas o inspector Muday, ao ver o corpo pálido de dona Joana (ela fora sem ter tempo sequer para se vestir) e aquele olhar tranquilo (talvez ela pensara que fosse aquela a única solução), resolveu acabar com tudo. Aproveitou-se da tristeza e fragilidade de Satani decorrentes da morte de sua mãe e colocou-lhe no chá uma dessas drogas que dão sono.

* * * * * * * * *

Satani acordou antes da hora. Recebia ainda os primeiros centímetros da faca de mesa quando abriu os olhos surpresos e confusos. Nada havia a fazer. Nem ao menos debater-se. Apressaria a entrada daquele objecto nada perfuro-cortante: os seus membros (superiores e inferiores) estavam presos a cada um dos cantos da sua cama. Impotente, olhou para o inspector com a mesma inquisição com que inúmeras vezes o haviam encarado. “Queres saber por quê?”, questionou Muday com um sorriso que desesperava Satani e o fazia lembrar dos seus momentos de deleite. “Seu menino mimado! Achas que és o único que tem essa estranha mania” disse, agora com um tom sério. “Sua mãe morreu. E não tenho mais ninguém com quem partilhar as consequências da tua irresponsabilidade. Bom… eu só lamento não poder partilhar este momento contigo. Tú sabes te divertir”, concluiu o inspector desferindo mais um golpe frio, lento no peito do jovem.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Dia de azar

Depois de fazer o serviço, meti-me na rua da Concórdia. Estava tão contente que não tomei um dos cuidados que, na minha profissão, é elementar. Só no final do troço (na parte mais ou menos iluminada) dei-me conta de que estava horrivelmente manchada de sangue a camisa branca que imprudentemente trajava. Tirei-a e amarrei-a no braço direito fingindo um ferimento. As poucas pessoas que via ofereciam ajuda, umas aconselhando- se a procurar cuidados médicos, e outras pedindo carregar o saco plástico preto que eu levava na mão esquerda. Livrei-me deles facilmente. Afinal aquela rua dava ao hospital. Chegado ao hospital, e conforme o combinado, joguei o saco no caixote de lixo, fui ao telefone público e rematei, sem preâmbulos:

— Já fiz o serviço. Livrei-me do corpo. A gente se encontra no local combinado. Não demora — disse eu num tom triunfante.

No entanto, passaram 15 minutos sem que o meu parceiro chegasse, ou que pelo menos me desse um sinal. Impaciente, fui novamente ao telefone para pressioná-lo. Mas olhando para o pedaço de papel, vi que ligara para um número errado. Inúmeras vezes eu repreendera o meu parceiro por causa da sua horrível e ilegível letra. O seu 4 era tão circular que era muito difícil não confundi-lo com 9. O desespero apossou -se de mim. Passei 2 longos e penosos minutos tentando decidir se desaparecia do lugar ou se ligava para meu parceiro para explicar o sucedido. Quando, finalmente, optei pela segunda alternativa, meia dúzia de mendigos tomara conta do caixote de lixo. Eram quase todos idosos e visivelmente fracos, mas não me atrevi a enxotá-los, seria inútil. Fugi.

Poucas horas depois, a polícia me pegava. Eu não tomara outro cuidado básico: ver a posição das câmaras de vigilância do hospital.

Quando, depois de desgastantes dias de julgamento, estava certo que eu seria condenado, apareceu a pessoa para quem eu acidentalmente ligara naquela madrugada de sábado. Tratava-se de um homem muito alto e muito gordo, mas que denotava uma grande fragilidade interior, a julgar pelo indisfarsável medo que o dominava quando foi arrastado para a sala de audiências. Saiu mais perturbado ainda, talvez por ter estado perto do mais famoso assassino e traficante de órgãos humanos; o carniceiro, segundo certa midia. Só espero não ter passado a ser um dos monstros de seus pesadelos.