terça-feira, 28 de abril de 2015

O carro fúnebre


Alguém viu o carro fúnebre ainda na cidade vizinha e veio dar o alerta.

Quando o carro chegou as ruas estavam desertas: as crianças fechadas em quartos escuros, de onde não podia sair sob pretexto algum; e as senhoras escondidas atrás das janelas, espreitando a rua pela fresta da cortina.

O carro era na verdade uma van adaptada,conferindo-lhe o aspecto fúnebre a cor preta e a inscrição dourada “agência funerária” nas laterais.

Ver o carro passar entretanto não era motivo para suspiros de alívio. Podia voltar.


Ninguém se esquecia da tarde em que uma pobre senhora viu o carro a parar-lhe à porta e chorou horrores. Ao anoitecer entretanto, quando tinha dezenas de pessoas no seu quintal indo prestar condolências, os preparativos do enterro em andamento, alguns familiares de outras cidades convocados de emergência, foi informada que afinal tinha havido um engano no endereço. Ela tinha estado a chorar no lugar de outra. 

terça-feira, 31 de março de 2015

Perdedores


 
Depois de nos lamentarmos das nossas vidas, começavamos a nos rir da desgraça alheia. Na verdade só agora a conversa tornava-se realmente interessante. Fazia sucesso entre nós a história de um sexagenário conhecido nosso. Depois de uma vida inteira de trabalho duro e sacrifícios, decidira que o resto dos seus dias seriam de prazer. Não deu uma volta ao mundo nem se tornou alcoólico. Passou a frequentar uma pensão discreta dos arredores da cidade. Sua convidada era uma mulher três vezes mais nova do que ele. Ela chegava primeiro, pegava a chave na recepção e sumia por um corredor meio iluminado. Poucos minutos depois chegava ele. Trocava um olhar de cumplicidade com o recepcionista e seguia o caminho da mulher. Horas depois ressurgiam os dois do corredor meio iluminado, abraçados e sorridentes. Ele pagava a conta e iam-se embora. Uma tarde, porém, a mulher ressurgiu sozinha, o que na pensão não era permitido sob pretexto algum. Depois de duas perguntas do recepcionista, a mulher confessou que tinha acontecido algo muito grave e desatou a chorar. Foram ao quarto e encontraram o nosso amigo morto e nu.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A GRANDE MEIA HORA DE BALTAZAR


Sonhou com o diabo e acordou se sentindo o homem mais forte do mundo. Deu um soco na parede e apareceu um buraco.

Agora podia finalmente realizar um sonho antigo e não quis perder nem mais um minuto: saiu à rua só de cueca.

Eram quatro da manhã, mas em breve apareceriam pessoas. Agachou-se atrás de um caixote de lixo, expectante, com os sentidos apurados. Pouco depois ouviu vozes e saiu do esconderijo.

Os três transeuntes primeiro riram-se daquele sonâmbulo gordo e pançudo; depois, ao verem o ódio na cara de Baltazar, viram que deviam era fugir. Dois conseguiram, cada um para seu lado. O terceiro deitou-se no chão e escondeu a cara entre os braços, resignado. Baltazar foi até ele, agarrou seu braço, levou-o até a boca e mordeu. O pobre homem gritou o mais alto que pôde, mas Baltazar só o soltou depois de arrancar um pedaço.

Levantou a cabeça e viu que afinal os outros dois homens tinham estado a assistir a cena. Escolheu um, o que parecia mais veloz, e avançou sobre ele. Perto de alcançá-lo, alguém o abraçou por trás e o derrubou. E depois eram dois homens a dominá-lo e amarrá-lo. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Corrida


E agora corríamos pela rua abaixo.

A rua era cada vez mais estreita e esburacada e nós estávamos cheios de pressa, ansiosos por chegar.

Alguns iam caindo e pisados em seguida e não se levantavam mais.

A rua dava num portão, que ia se abrindo à medida da nossa proximidade.

Dali saiu um homem bem vestido nos mandando parar com uma mão no ar. E em seguida nos deixou entrar.

Aparentemente, nada obstava nossa entrada. O homem queria ser quem mandava entrar, simplesmente.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Duas semanas de medo



Chamaram-lhe G20 porque eles eram vinte.

Eles não eram meros pilha-galinhas, eles eram muito perigosos. Noutra semana haviam atacado um carro da polícia e roubado armas, o que os reforçou ainda mais e nos deixou ainda mais amedrontados.

Estávamos particularmente apavorados porque os bandidos não se limitavam a arrombar portas, espancar as vitima e roubar; agora eles tinham incrementado abusos sexuais (mulheres, homens e crianças) e, para finalizar torturavam as vítimas com ferro de engomar em brasa.

Como não poderia falhar, certo religiosos apressaram-se a dizer que nos deixássemos de coisas, pois aquilo era o fim do mundo.

Os meliantes actuavam nos bairros vizinhos havia duas semanas e era uma questão de dias para chegarem no nosso. Era mais do que uma suspeita, pois eles haviam espalhado cartazes dizendo que não se haviam esquecido de nós. Ficamos sem saber se seriam o ultimo bairro porque estávamos mais perto do centro da cidade o porque o melhor da festa (festim ou festival) fica para o fim.

Ficamos muito indignados quando o chefe da polícia disse que o G20 não existia, não passava de mais um boato difundido por gente com intenções inconfessáveis. Segundo ele, algumas pessoas haviam sido violadas sexualmente e engomadas, mas eram todas da mesma família; e apurou-se que tinha sido um caso de ajuste e de contas.

Decidimos que íamos nos defender, ainda que sem o apoio daquela polícia que se recusava a ver o óbvio. Começamos com uma série de medidas: trancar as portas e as janelas, esconder o ferro de engomar bem escondidinho e comprar um apito para cada membro da família (caso ouvíssemos alguma coisa estranha era só desatarmos a apitar que nem loucos). Mas o nosso ponto mais forte era o patrulhamento das ruas do bairro. Eles eram só vinte e nos milhares. Eles não ousariam nos visitar.

É claro que o povo não deixou de brincar com a situação. Vejam a mensagem de texto seguinte: “Pergunta do dia: os homens fazem patrulha para protegerem seus bens ou para protegerem seus cus?”

O patrulhamento resultou. O G20 não nos visitou, pelo menos não em número completo. Na primeira noite queimamos dois (pneus, gasolina e fósforos). Eles juraram até a morte que não eram ladrões e não faziam parte de grupo nenhum. Duas noites depois capturamos mais três “trabalhadores honestos”. Alguns de nós levaram-nos à policia. Mas como a maioria queria justiça, invadimos o lugar e espancamos os três. Noutros dias pegamos mais. Eles tiveram apenas ferimentos graves.



Um mês depois ninguém falava mais do G20. O mais curioso é que, além das vítimas apresentadas pela polícia, ninguém é capaz de jurar que viu as outras, que se tinha dito serem dezenas e dezenas. 23/08/2013

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Primeiros Socorros


O pior que fizemos foi termo-nos mudado para aquela vila. Aquilo não era lugar para vagabundos. Em uma semana e meia todo mundo já nos conhecia, todo mundo já nos odiava e todo mundo queria nos ver pelas costas.

 
No dia da nossa partida, conseguimos enternecer o coração do dono da estação de serviço à saída da vila. O velho nos contratou porque não havia na região quem quisesse fazer limpezas naquele estabelecimento decadente. Mas o trabalho era pouco e às dez da manha já estávamos livres. E então passávamos o dia o quase inexistente movimento dos carros.

 
Não acreditamos quando certo dia o velho disse que aquela era uma zona de acidentes. As autoridades faziam de tudo para manter a estrada e a sinalização em dia mas aquilo era, inevitavelmente, um autêntico cemitério. O velho quis contar as histórias mas não deixamos; só nos deixariam ainda mais entediados.

 
Mas com tudo não dura para sempre, certo dia um pessoal da vila veio nos convidar para uma festa. Não sei como, souberam que nos éramos bons convivas: tínhamos um papo agradável. Comíamos e bebíamos moderadamente e, sobretudo, éramos bons dançarinos.

 
Confirmamos as nossas habilidades e todos fins-de-semana éramos convidados para algum convívio. O problema era que depois da festa ninguém nos trazia para casa e tínhamos que percorrer aqueles quatro quilómetros a pé.

 
Certo dia, voltando, vimos um carro a uns cinquenta metros da estacão de serviço, com as rodas para o ar. O acidente ocorrera há pouco tempo pois o condutor ainda tinha forcas para pedir socorro. Eu estava menos bêbado que meu irmão e cheguei primeiro.

“Graças a deus! Finalmente alguém chegou”, disse a vítima.

 
Era um homenzinho magro e baixo. Ele não estava muito mal, quebrara uma perna apenas. Continuava no carro porque estava demasiado nervoso para conseguir desatar o cinto de segurança. Mandei-o ficar calmo.

 
“Filho da puta”, disse ele.

 
É que em vez de lhe desatar o cinto de segurança, pus-me a vasculhar seus bolsos e o porta-luvas. Encontrei a carteira e algum dinheiro.

 
“Onde esta o celular?”, perguntei pressionado a sua perna magoada.

 
“Está aqui”, disse o meu irmão, que estava vasculhando o banco de trás. Disse tão desesperadamente como se fosse ele que estava sendo machucado.

 
Entregou-me a carteira e eu ordenei que fossemos embora. Ele quis que pelo menos tirássemos o homem do carro. Eu não quis saber. Ele ficou ali sem saber o que fazer. Depois seguiu-me.

Perto da estacão de serviço ele parou bruscamente.

 
“Vou salvá-lo”, disse e desatou a correr em direcção ao carro.

 
Mas mal deu cinco passos e o carro explodiu. 08/07/2013

 

 

sábado, 8 de junho de 2013

Sobre mosquitos


O pior daquela vila era a praga de mosquitos: quem quisesse ter uma horinha de sono, devia dormir sob uma rede mosquiteira, pois os bichinhos não sucumbiam aos repelentes e outras drogas. Mas ainda assim só se podia dormir depois das três da madrugada, quando a temperatura começava a baixar, porque as redes mosquiteiras tornavam o calor ainda mais infernal.

Entretanto, o pior de tudo era o zumbido dos mosquitos. Não há nada mais irritante e enervante. Como aves de rapina, sobrevoavam a rede mosquiteira, loucos para achar um furo na rede para poderem entrar e, cobardemente, me atacarem. É claro que eu sempre me certificava de que a rede estava bem, que não havia um furinho que fosse. Tanto procurei que um dia achei um. Mas ignorei-o. É que os mosquitos, todo o mundo sabia, preferiam atacar o rosto, e aquele furo estava lá para os pés. Assim, eles jamais me atacariam.

Aquilo era estar a contar com a estupidez do inimigo, uma ideia completamente estúpida. Mas eu precisava acreditar que não seria atacado. Só assim conseguiria dormir. 09/06/2013